domingo, 20 de janeiro de 2008

Um certo...pedantismo acadêmico


Há poucos dias atrás conversava com alguns amigos sobre este conceito vasto e impreciso de inteligência. E realmente é algo bem discutível, e pouco tem a ver acesso a oportunidades e educação formal, a maior prova disso é a quantidade de impropérios que ouvi durante meu tempo no ambiente acadêmico, diga-se de passagem, ouvi as piores sandices justamente por parte de pessoas que tiveram todo um histórico de vida de acesso e oportunidades financeiras e educacionais.

Outro dia ouvi de uma professora universitária que há uma certa dificuldade em lidar com projetos que envolvem jovens de periferia, justamente porque eles tem pouca proximidade com a leitura, ou seja só se dão bem com outros aspectos da comunicação, de preferência os que envolvem imagem. Ouvi aquilo e achei absurdo, não por ser uma “inverdade” mas porque a questão do “pouco hábito de ler” não é um privilégio ( se é que se pode chamar isso de privilégio...) das classes menos favorecidas, é cultural e até onde eu sei os adolescentes de classe média alta são consumidores de imagem e não propriamente de textos, assim como toda a sociedade contemporânea. Por trás da fala da professora a quem me refiro havia um preconceito nítido, e uma ausência de análise medonha. Me assustou perceber que determinados preconceitos estão tão enraizados que são capazes de nublar até constatações óbvias, e atingem até mesmo educadores, o que é mais grave ainda. Há um certo pedantismo por parte de alguns universitários e professores, algo do tipo “somos a elite cultural do país”. Não estou diminuindo a importância do ensino superior, mas é uma ilusão acreditar que passar pela universidade é capaz, por si só, de conferir inteligência, no sentido mais nobre da palavra, ao sujeito.

A verdade é que apenas discussões e acesso a livros (e ter acesso não quer dizer que se entende o que foi lido...) é insuficiente para combater determinados conceitos. Neste caso estamos lidando com a idéia de que os grupos desprivilegiados economicamente são constituídos por sujeitos menos capazes de pensar criticamente, o que nem de longe é verdade. Basta observar as iniciativas de organização por parte de jovens dessas comunidades, e de como eles analizam e interagem com o mundo que os rodeia. São muito mais críticos e questionadores da realidade do que muitos universitários de classe média, o que só vem a atestar o potencial de cada um deles já que vieram de condições de vida muito mais severas. Basta observar grupos como o Afro Reggae no Rio de janeiro, o NUC, do aglomerado Alto Vera Cruz em Belo Horizonte, bem como outros inúmeros exemplos espalhados pelo país.

Tive a oportunidade de conhecer pessoas incrivelmente articuladas que nem sequer concluíram o segundo grau, claro que eu nunca imaginei que uma coisa pudesse interferir na outra, mas o fato é que o diploma universitário serve em muitos momentos para que idiotas se sintam posicionados acima dos demais, porque dominam (ás vezes, nem sempre...) a retórica, ou seja, são capazes de repetir besteiras do senso comum utilizando a norma culta da língua portuguesa, o que lhes confere credibilidade. Ou porque um ou outro professor lhes fizeram pensar sobre coisas que sempre lhes deram preguiça, como o lugar de cada um na sociedade etc...e hoje estes conceitos e idéias debatidas em sala de aula são usados em rodas de bate-papo para que aparentem ser mais inteligentes, antenados, engajados e mais conhecedores dos problemas do mundo do que a maioria pobre, favelada, massificada e burra.
Aqui o recurso ao clichê é mais que justificável: “seria engraçado se não fosse trágico”.

Rogério Dias (ou Roger Deff para os brothers) é vocal do Julgamento, leitor assíduo de Hqs, colaborador da revista Jararaca Alegre, do site Alto falante, estudante de jornalismo nas horas vagas e apresenta um quadro semanal no programa a Hora do Rock.

4 comentários:

disse...

Ainda bem que existem universitários como você, amigo e meu irmão Roger Deff. (Viu que escrevo certo agora?).

Vou usar a sua afirmação porque também aconteceu comigo:
_ Foi justamente na faculdade de jornalismo que ouvi as piores pérolas que um ser humano poderia soltar.
Absurdos saindo das bocas de Patricinhas que só pensavam em aparecer na tela da TV de maior audiência do país ou topeiras que vivem a base de prancha e salto alto.
Eu não sinto NENHUMA saudade da faculdade de jornalismo, lá foi onde ouvi as maiores asneiras acadêmicas vindas de alunos funkeiros (leia-se o funk carioca vulgar) ou de mocinhas ridículas que colocam sua falsa virgindade a favor da Igreja católica e de seu ridículo prazer e ignorância plena, donos de um senso comum que cria mais e mais barreiras.


Ainda bem que existem alunos como Roger Deff, Luana, Tobias, Guilherme Gonser, Juliana Viana e outras tantas figuras bacanas.

Tamojunto.

A HORA DO ROCK disse...

Essas muié de cóqui e bolsa jacaié axa que nóis iscrevi erado, só pusque num fomo na iscola!

A danada num sabe quinóis iscrevi ansim, pusque daí sónóis intendi. Hehehe...

Giléeerme

Rogério Dias disse...

rsrs, boa essa Gui!

Gui Longo disse...

Fala Grande Roger!!! Esbarrei num comentário seu no Overmundo e vim parar aqui... Bacana seu espaço.
Grande abraço.

Gui Longo (la da Puc)
http://poucodetudoetudodenada.blogspot.com