quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Bela sapatada!


A saída do "W" da casa Branca não poderia passar batido neste blog, não é mesmo?


Bom, o Cowboy texano, famoso por suas gafes, pelas fraudes eleitorais e, principalmente, por promover "guerras fictícias", como bem disse o cineasta estdunidense Michael Moore, finalmente vai pendurar as chuteiras. Claro, isso depois de ter realizado o sonho de ser "Senhor da Guerra", brincar de mocinho e bandido contra o vilanesco Sadan Hussein, ter deixado toda a nação iraquiana em condições que nem o pior dos ditadores conseguiria sozinho além de criar seu próprio campo de concentração em Guantanamo.


Se a administração Bush Júnior trouxe algo de positivo ao mundo foi mostrar até aos maiores puxa-sacos do Tio Sam que as missões humanitárias do exército americano ao redor do mundo de fato não tem nada de "humanitárias".

Claro que eu lamento, entre outras coisas, pelo fato do jornalista iraquiano Al Zaide não ter uma mira melhor e ter finalmente desmanchado aquele sorrisinho neo-conservador com uma bela sapatada!

(parafraseando meu amigo Boave)Saravá!

sábado, 10 de janeiro de 2009

Um mundo em transição?



O título acima não é nenhuma tentativa de ironia ou coisa parecida. É realmente uma pergunta. Impossível deixar de notar algumas mudanças importantes, principalmente no campo político. Me refiro, entre outras coisas, à vitória do senador norte-americano, Barack Husseim Obama, recentemente alçado à condição de chefe de Estado da nação mais poderosa do mundo. Tudo bem, seria apenas mais um a ocupar a Casa Branca não fosse o fato de se tratar de um negro de ascendência queniana.


Fato estarrecedor, principalmente se levarmos em conta o fato de que há apenas 40 anos atrás, pouquíssimo tempo em termos históricos, os negros estadunidenses ainda lutavam por direitos básicos de cidadania, e apanhavam por isso. A eleição do senador democrata representa uma espécie de ruptura importante com alguns conceitos arcaicos e com uma história marcada pelo racismo. Isso obviamente não quer dizer que o racismo acabou, nem aqui nem lá, mas é um passo e tanto. Dizer que as coisas só pioram é tão mentiroso quanto afirmar o contrário. A história é feita de avanços e retrocessos.


Acho que fui feliz em muitos aspectos, principalmente por poder ter presenciado, em meu tempo, alguns fatos importantes da história mundial. Em 2003 quando o operário Luiz Inácio Lula da Silva assumiu a presidência do Brasil, era algo igualmente grandioso. Pela primeira vez não eram os membros das oligarquias brasileiras que ocupavam o cargo. Em um país marcado por uma ditadura que durou décadas, e cujos efeitos repercutem até hoje, dominado desde sempre por uma elite que sempre governou para ela própria e cuja história política (não poderia ser diferente) fora construída de cima para baixo, a assensão de Lula ao poder era algo no mínimo inusitado.


Verdade que a questão da reforma agrária permanece onde sempre esteve e o fato de ter sido um governo de alianças com antigos inimigos políticos (como qualquer governo brasileiro será se não ocorrer uma reforma política) fez com que não tivessemos uma administração tão progressista.
Mas nem isso tira a importância histórica do fato e as conquistas, inéditas até então, conseguidas por este governo. Mesmo com as perseguições preconceituosas, onde ele era acusado de ser um homem pouco “culto” e, portanto, incapacitado para assumir tamanha responsabilidade, o governo conseguiu dar passos importantíssimos na área social, embora utilizasse boa parte da cartilha econômica do antecessor, Fernando Henrique Cardoso. Tivemos ainda a assensão de outros governos de esquerda na América Latina, como Hugo Chavez na Venezuela e do índio Cocalero, Juan Evo Moralez na Bolívia. Enfim, o mundo está em um processo de mutação só imaginável há décadas atrás em livros de ficção, e daqueles otimistas ainda.


Voltando ao senador Obama, agora presidente, é sem dúvida um marco histórico, que eu espero, num futuro próximo não seja mais motivo de tanta comemoração, porque aí os negros já terão conquistado seu lugar na sociedade em pé de igualdade e nada disso chamará a atenção (se bem que isso é pauta pra outra discussão). De qualquer forma, é importante salientar que a América continuará lutando por sua posição hegemônica no mundo. Independente de quem estiver no poder, democratas ou republicanos.
Claro que o cowboy texano, segundo da linhagem dos Bush a assumir a presidência, conseguiu ser mais desastroso do que a política de seu próprio país permitia, mas a relação entre o Tio Sam e o resto do mundo não deve mudar tanto assim. Obama representa uma ruptura óbvia, mas ainda assim é o representante dos Estados Unidos da América.

De qualquer forma há um sentimento de otimismo em todo o mundo por conta da eleição de Obama, o que fez com que 2008 tivesse um sabor de “final feliz” (mesmo que não para todos), pelo menos no que diz respeito aos rumos da política mundial. Se as expectativas serão frustradas ou não só o tempo dirá. O discurso pelo menos é menos conservador e retrógado que o do seu antecessor. O fato em si já é digno de nota justifica um certo otimismo, mesmo que o façamos com os “pés no chão”.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Múltipla

Viva a diversidade, salve a diferença, na música na arte, na dança, no olhar, no jeito de falar.
Na expressão e suas várias formas, sociedade múltipla...

De múltiplas faces, diversos contrastes...
Contrastes de pensamento, de gênero, de credo e etnia.

A beleza não tem uma única face. A música ecoa para todos os gostos e ouvidos.
Afinados, desafinados: Que cantem,a expressão é o que importa!

Tambores, latas, panelas, batuquem.
A hora é agora!A imposição de poucos sobre os demais, refutem!

Abaixo as fórmulas prontas, que a diferença se faça presente.
Sem vergonha de ser o que é, sem o aval da vênus platinada.

Viva o sincretismo! Um viva aos poetas, párias e malditos.
Aos que caminham pela mudança, aos que falam através da dança.

Aos que cantam com as palavras, aos que transmitem com o olhar.
Que a arte se faça presente, sempre, pois a vida é arte.

Arte que se aprende, arte que se ensina, arte em todas as formas.
Viva o improviso, aos que têm coragem de ousar de inventar e se reinventar.

domingo, 5 de outubro de 2008

A influência do Public Enemy e os 18 anos de Fear of a Black Planet



1990, início de uma década importante, para mim particularmente. O primeiro presidente (pós ditadura) eleito pelo voto direto acabara de tomar posse, a guerra fria se aproximava do fim e o horizonte apresentava aquilo que alguns “profetas” iriam, erroneamente, chamar de “fim da história”.

Foi em meio a todo este turbilhão de acontecimentos que ouvi falar pela primeira vez do Public Enemy, um dos grandes ícones do hip-hop e da música mundial. Hoje, numa época em que o mainstrean é dominado por nomes como Fiffty Cents e os vídeo-clipes norte americanos de rap remetem, a carros, mulheres dinheiro e ostentação vazia a perder de vista, é difícil imaginar um discurso tão visceral e contundente quanto o do Public Enemy na programação normal da MTV.
A postura do trio influenciou toda uma geração de artistas no mundo inteiro (o Racionais Mcs surgiu tendo o Public Enemy como principal referência) e deu ao rap uma conotação que vêm se perdendo com o passar dos anos, a idéia de críticas ácidas e inteligentes. Gente como Zack de La Rocha e seus companheiros do Rage Against The Machine, sofreram influência direta do trabalho e da postura ativista do grupo. As letras de Chuck D, Flavor Flav e o Dj Terminator X, focavam sempre questões como racismo, mobilização social e criticavam até mesmo a política externa e belicista dos Estados Unidos.


O álbum Fear of a Black Planet, lançado no ano de 1990, está entre os mais importantes discos da história, trazendo faixas como a antológica “Fight the Power”, música que no ano anterior- 1989- havia sido tema do filme “Faça a coisa certa” do cineasta Spike Lee. Impressionante o quanto, 18 anos depois, o álbum permanece atual e instigante. O trabalho foi construído num período em que o rap estava muito mais ligado ao conceito de contra-cultura do que a qualquer tipo de modismo e estereótipo midiático. Músicas marcantes como “Brothers Gonna Work It out” fugiam totalmente da linha convencional do gênero, misturando guitarras a samplers barulhentos ( sirenes e outros sons indecifráveis) que davam a base perfeita para as mensagens politizadas e corrosivas de Chuck D, a exemplo de clássicos como “Welcome to The Terrordrome” e a polêmica “Anti-nigger Machine”.


O manifesto ia além das letras, era estético também, uma verdadeira desconstrução de tudo que era (e ainda é) convencional na indústria fonográfica. Posteriormente vieram outros discos memoráveis dentre os quais destaco os ótimos “He got game” (1998) e “Revolverlution” (2002). Quando Chuck D (Carlton Douglas Ridenhour) fundou o grupo, nos anos 1980, tinha a intenção clara de trazer algo totalmente novo à construção musical do rap. A contribuição do Public Enemy para o hip-hop (que é uma cultura e não simplesmente um estilo musical) pode ser facilmente comparada com a importância que bandas como Rolling Stones têm para a história do rock e todo o modelo de comportamento que o estilo traz na bagagem. Chuck D e Cia completam mais de vinte anos de estrada, é um dos poucos grupos e artistas de rap daquele período ainda em atividade, o que os deixa entre os trabalhos mais duradouros da história, ao lado de grupos importantes como o RUN DMC e De La soul.
Posso dizer, sem sombra de dúvidas, que, se me apaixonei pelo hip-hop de forma irremediável foi por causa de discos como Fear of a Black Planet e outros tantos trabalhos inspirados na postura dos Public Enemy, e se existe uma essência atemporal para o rap eles são alguns dos grandes responsáveis por isso.

domingo, 21 de setembro de 2008

Jabaculê nas rádios e emissoras de tv

Ao ouvir a mesma música repetidas vezes nas principais FM’s (e AM’s também) a impressão que temos é que a música em si está sendo veiculada por mérito próprio, ou seja simplesmente pela aclamação do público, mesmo quando o gosto nos parece duvidoso.O que a maioria das pessoas sequer desconfia é que por trás do aparente sucesso de algumas obras fonográficas está um esquema de merchandising, mais conhecido no meio musical como “jabá”, abreviação do termo popular “jabaculê”( do Aurélio: gorjeta, dinheiro usado para subornar alguém). A tal “música de sucesso” é executada mediante o pagamento de uma quantia considerável em dinheiro (que varia de 5 mil a 20 mil reais), ou qualquer outra forma de pressão exercida pelas grandes gravadoras. Trata-se de um negócio extremamente lucrativo, em que a gravadora vende uma quantidade enorme de cópias de CDs dos seus principais artistas enquanto as emissoras de rádio, e de TV também, têm neste tipo de promoção uma das suas grandes fontes de renda. A pergunta que fazemos a partir daí é “quem se prejudica?”, a princípio o público, que é enganado já que é levado a acreditar que os seus cantores favoritos permanecem no “topo” graças à genialidade de sua obra artística, como o próprio B Negão (ex-Planet Hemp) definiu uma vez é “engano ao consumidor”. O público ainda é lesado em outro aspecto já que este tipo de esquema não permite o acesso a outros trabalhos artísticos limitando o conhecimento das pessoas ao eterno “mais do mesmo”. Do outro lado está o artista, aquele que não possui meios (ou se nega) a pagar para que seu trabalho seja veiculado nas rádios. Este acaba prejudicado porque o espaço nas emissoras não depende do seu talento e sim do seu poder de compra.E engana-se quem acredita que essa prática seja recorrente apenas nas rádios convencionais, algumas emissoras que se auto–intitulam “comunitárias” fazem o mesmo. Importante lembrar que não se trata de nenhum tipo de preconceito contra essas formas de comunicação alternativas, muito pelo contrário, a intenção aqui é estabelecer a diferença entre as verdadeiras comunitárias e aquelas que apenas utilizam a alcunha, por mera convenção. Existem ainda aqueles artistas que, mesmo não possuindo recursos financeiros para tanto, acabam conseguindo, às custas de economias forçadas, a quantia necessária para pagar as tais emissoras (sejam convencionais ou “comunitárias”). O problema é que quando o músico resolve colaborar com este esquema ele ajuda a alimentar o que há de mais sujo na indústria musical, o famigerado e imoral jabá. O disco deixa de ser arte para virar produto, tudo bem que seja “produto”, mas ser reduzido a apenas isso? O resultado é visível “bunda-music”, e “emo-boy bands” aos montes na programação diária. Dizer que a música brasileira está degradada é uma mentira, o que acontece é que gravadoras e afins investem alto, financeiramente falando, em produtos de qualidade baixa e fácil digestão, mas os bons artistas ainda estão aí, mesmo que sem espaço nas emissoras. Caso como o do Nação Zumbi, uma das melhores bandas do Brasil que “estranhamente” não tem suas músicas executadas nas rádios convencionais, simplesmente porque não participa deste esquema de merchandising. Isso sem falar de uma infinidade de músicos talentosos Brasil afora que procuram alternativas para a divulgação de suas obras, felizmente estas “alternativas” existem, são as rádios livres, rádios comunitárias (apesar do papel repressivo da ANATEL) e os espaços existentes hoje na web (coisa impensável há alguns anos atrás).Todas estas opções constituem um “furo” no bloqueio imposto pelo oligopólio das emissoras de rádio, tv e grandes gravadoras, as chamadas majors. Apesar disso o alcance destes meios alternativos ainda é limitado, sendo que a grande via de acesso para a produção musical ainda se dá através dos grandes veículos de comunicação. O projeto de lei idealizado pelo músico Lobão e o deputado Fernando Ferro em 2003, que propunha a criminalização do Jabá (com penas que variam de um a dois anos), gerou polêmica e contou inclusive com o apoio do nosso ex-Ministro da Cultura, Gilberto Gil, apesar disso o PL número 1.048/03 ainda aguarda na fila para apreciação em plenário. O pedido de urgência apresentado pelo deputado Miro Teixeira do PDT – RJ foi negado pela mesa diretora da câmara. Me parece que o lobby da indústria da comunicação ainda fala mais alto que o bom senso.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Dark Knight


Dark Knight:"Bom demais para ser verdade” acho que essa é a frase que tomou conta das mentes dos nerds do mundo inteiro ao assistir Dark Knight , adaptação do herói Batman para as telas de cinema.
Uma das grandes virtudes do filme é o fato de não ser uma produção voltada exclusivamente para o público leitor de quadrinhos, embora as características dos personagens tenham sido respeitadas. Aliás, o Coringa interpretado por Heath Ledger é melhor que qualquer versão do personagem apresentada anteriormente.
O último trabalho completo deste ator australiano é digno de reconhecimento, inclusive supera em muito a caracterização feita por Jack Nicholson em 1989. O vilão é a alma do filme em muitos aspectos, uma verdadeira força fora de controle, mas o núcleo dramático da história gira em torno do personagem interpretado por Aaron Eckhart, o promotor público Harvey Dent, que posteriormente se transforma no vilão Duas Caras.
Christopher Nolam já havia conseguido apagar o estigma dos filmes de Joel Schumacher e Tim Burton ao repaginar o personagem com o seu “Batman begins”, mas Dark Knight destrói definitivamente qualquer referência às piadas infames e às luzes de neon dos homens-morcego anteriores.
Trata-se de um filme sombrio que faz jus ao título “cavaleiro das trevas”, o roteiro é coerente, complexo, não deixa pontas soltas e em momento algum o filme faz concessões que o façam perder a dignidade para que possa atingir uma gama maior de espectadores.


O roteiro se mantém surpreendente até mesmo para quem já tinha uma leve noção da abordagem da história e o clímax continua crescendo mesmo após a última aparição de Ledger na tela. O tema central é a responsabilidade e a importância de Batman enquanto símbolo de uma cidade corrompida pelo crime. Vemos o fardo que Bruce Wayne terá que carregar por ser a única pessoa capaz disso, fica claro o papel de pária assumido pelo personagem, um pária muito mais necessário que um herói para a caótica Gotham City.


A grande surpresa é que o filme é sucesso de crítica, um dos maiores blockbusters da história de Holliwood, superando até mesmo a bilheteria de filmes como Spider-man 3, e isso tudo seguindo uma receita nada convencional para os tradicionais filmes de verão, em sua maioria pirotécnicos e descerebrados.
A película já é um clássico, não apenas como adaptação de Hqs, mas como obra cinematográfica. Se a Warner for seguir a mesma receita para as demais produções baseadas em vigilantes fantasiados, então boas novidades estarão à nossa espera.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Desigualdade e Racismo no Brasil: eterno tabu



Falar de relações raciais no Brasil sempre constituiu um tabu principalmente pela forma como essas relações foram construídas ao longo dos tempos.O processo de escravidão, e a cultura que se estabeleceu graças a ele, deixou marcas profundas que repercutem ainda hoje. Uma das razões para o aprofundamento do preconceito velado no Brasil é o fato de que a história relegou ao negro o papel de figura passiva, mera mão de obra escrava e, até pouquíssimo tempo, os livros didáticos ensinavam que o negro foi escravizado porque se adaptava melhor à situação de trabalho forçado, coisa que não aconteceu com os povos indígenas. Maior absurdo é que este tipo de impropério era ensinado como se fosse coisa séria. A difusão de idéias como essa colaborou para que uma imagem menor do negro enquanto indivíduo fosse construída ao longo da história, e ajudou inclusive para que se firmasse uma idéia de incompetência em relação aos afro-descendentes. Este e outros fatores ajudam a entender as razões que levaram os negros desenvolverem uma baixa auto-estima em relação á própria etnia, o que não é de se surpreender. Obviamente este perfil vêm sendo alterado principalmente entre os que tiveram acesso à educação formal e outros que encontraram formas alternativas de construção de suas identidades. Aliás, outras formas de construção de identidade vêm em primeiro lugar, como as provenientes de movimentos como o hip-hop e a convivência em outros grupos intimamente ligados à cultura afro-brasileira tais como congado, capoeira e outros, todos eles capazes de conferir ao indivíduo uma fator identificador alternativo aos meios de comunicação. O fato é que a influência do negro na cultura nacional recebeu um lugar de pouca importância em nossa história, isso quando aspectos culturais dos povos africanos não foram sistematicamente demonizadas e marginalizadas como no caso de manifestações religiosas como o Candomblé.
Há uma grande dificuldade em confrontar tais afirmações com a opinião vigente, principalmente porque vivemos o eterno mito da “democracia racial”. O país em que as raças "se irmanam" e convivem na "mais completa harmonia" e com igualdade de oportunidades, esconde um racismo velado, o que o torna mais difícil de ser combatido. Importante lembrar que a disparidade em termos de oportunidades não é apenas de cunho social e econômico. Não por acaso a dificuldade de acesso possui um perfil racial bem definido.


O Brasil é o país fora do continente africano que possui o maior número de afro-descendentes, sendo que estes constituem cerca de 45% da população brasileira e os mesmos constituem 64% da população mais pobre e 69% do total de indigentes. Importante lembrar que estes 45% da população brasileira não encontram representação, nem de longe, equivalente nos meios de comunicação ou nos cargos considerados de maior prestígio.O IDH – Indice de Desenvolvimento Humano – que mede a qualidade de vida das populações baseado em itens como alfabetização, riqueza e expectativa de vida – se mostrou alto no último relatório da ONU referente ao Brasil, entretanto o IDH da população negra manteve-se baixo, embora tenha apresentado um crescimento considerável se comparado ao relatório anterior.


Embora os avanços recentes tenham sido notáveis, eles ainda apresentam números tímidos mas vale ressaltar que algumas medidas importantes têm sido adotadas. Uma delas é a questão das ações afirmativas, a velha história das cotas para negros e indígenas. Independente das opiniões contrárias, elas cumprem um papel que é primordial para mim. Pela primeira vez em muito tempo a questão racial foi discutida a sério na esfera pública, nos debates em programas de tv, nas universidades e nas ruas o que evidenciava que havia algo de muito errado em nosso país “livre de preconceitos”, a polêmica gerada pela adoção da medida contribuiu para que o tabu fosse deixado de lado e a discussão viesse à tona. Um dos grandes passos recentes foi a inclusão do ensino da cultura afro-brasileira nas escolas. O acesso a uma disciplina como essa ajuda na formação de uma visão mais ampla de cultura por parte dos alunos. A matéria entrou oficialmente no currículo das escolas a partir de 2003, resta saber se existem profissionais capacitados em número o suficiente para suprir a demanda. Em todo caso já é um alívio saber que perceberam a necessidade de se levantar este tipo de discussão. A lei em questão reza que seriam incluídos estudos sobre a história da África, luta dos negros no Brasil e o papel do negro na formação da identidade nacional.


Acho que ainda há muito o que conquistar mas é um passo importante para que os negros brasileiros sejam vistos como indivíduos que ajudaram a construir a visão de mundo de todo um povo e não apenas como figuras passivas cuja maior contribuição foi a mão de obra escrava.