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quinta-feira, 28 de abril de 2016

Violência da exclusão que gera violência


Pobreza por si só é violenta, porque exclui. Esse é um ponto. Mas não é a pobreza que causa a violência urbana, como muita gente pensa, é a desigualdade. Parece obvio, né?
Lembro de uma entrevista do Gilberto Dimenstein em que ele abordava o tema e citava países miseráveis como a Índia, onde o índice de violência era bem menor do que aqui. Motivo? Em poucos lugares do mundo o contraste social é tão gritante. Sobe o Morro do Papagaio pra ver. A linha que separa os barracos dos casarões é nula, a discrepância de oportunidades entre quem tem e quem não tem é gritante. 
Na minha adolescência eu lembro de amigos que falavam em "roubar o tênis do boy" e havia muito ressentimento naquela fala, raiva mesmo. Porque não importava o quanto trabalhassem, eles não poderiam nunca ter o símbolo de status que estava ao alcance de quem morava no "asfalto" e que era oferecido pra eles, pra gente, da mesma forma. O Brasil mudou. O "tênis" e alguns outros símbolos de status não eram mais um problema, ainda assim continuávamos uma das piores distribuições de renda do mundo.
Alguém do outro lado não entendeu a equação, e reclamou de programas de distribuição que contribuíam para a redução dessa desigualdade violenta que gera violência. Devido a uma série de fatores as preces de quem queria dar fim a isso foram atendidas.Burrice. Com a iminente redução de direitos, redução de acessos, acirrando ainda mais as diferenças, eu não vejo uma realidade boa pra ninguém. É um contexto violento dos dois lados, mas eu sei muito bem quem perde mais nisso tudo.

domingo, 13 de julho de 2014

A "elite" brasileira já nasceu falida


Nossa "elite" está longe de ser exemplo para alguma coisa. Os afortunados do Brasil são exemplo sim de má educação (demonstram isso publicamente em estádios), egoísmo, desconhecimento histórico, obscurantismo e preconceitos que são inexplicavelmente assimilados pelas classes populares. Francamente, não dá para chamar exatamente de “intelectualizado” um grupo que tem em uma publicação como a Veja a sua principal porta voz. A “elite” deste país não é sequer esclarecida, é moldada em grande parte pelo medo. Medo da perda de posições, da perda da exclusividade, da perda do poder. Uma pseudo aristocracia ridícula e atrasada que se coloca contra os avanços mais básicos incluindo políticas de inclusão social como reforma agrária, ações afirmativas ou qualquer movimento que ameace seus privilégios. É tão míope que consegue enxergar “privilégios” nas tentativas ainda ínfimas e insuficientes de repartir o bolo com o restante da população que não se encontra entre os eleitos pela falácia da meritocracia, facilmente desmentida pela experiência do cotidiano, ou  com dados básicos acessíveis com uma busca simples pelo Google.  Este atraso de pensamento não deixa de ser sintomático em um país que foi o último a abolir o regime escravocrata, mediante pressão internacional ainda. É uma casa grande desesperada em manter a “senzala” à distância. Pela sua incapacidade de acompanhar qualquer mudança, é uma elite que já nasceu falida.

O pior é perceber que este conjunto de bobagens inspira quem aspira alcançar a posição dos 10% mais ricos: o comportamento egoísta, a ojeriza a tudo que venha das classes populares e o medo. Só que, neste caso (dos aspirantes à elite), é o medo ainda mais irracional de perder o que sequer foi alcançado. Não deixa de ser curioso, como uma classe mimada que coloca entre suas maiores preocupações a perda do acesso exclusivo a aeroportos consiga ter uma base tão gigantesca de candidatos e como essa ideologia pode ser replicada de forma tão massificada e irrefletida.

domingo, 30 de junho de 2013

O QUE HÁ DE NOVO?

*Foto: Segundo dia de manifestações em Belo Horizonte/ Minas Gerais

Movimentos como a Primavera Árabe, Ocuppy Wall Street, os protestos na Turquia e a onda de manifestações no Brasil, são indícios claros de que os atuais modelos de representação política passam por uma grave crise de legitimidade. Há uma dissonância perceptível entre os anseios dos grupos sociais e as direções tomadas por seus líderes. 
O Ocuppy Wall Street (2011) pode ser apontado como um dos mais emblemáticos, não pelo grau de importância em relação a outros movimentos, mas por evidenciar disparidades sociais claras, isso bem no centro do capitalismo mundial, os Estados Unidos da América.
O slogan “we are the 99%” chamava a atenção para o quanto custa manter as riquezas e privilégios de uma minoria, os “1%” mais ricos, em detrimento do restante da população, colocando em xeque a ideologia econômica que tem norteado o American Way of Life e apontando a sua evidente falência.

A primavera Árabe (2010), que é anterior ao Ocuppy, levou pessoas às ruas com o objetivo de derrubar regimes ditatoriais que se mantinham no poder a décadas em países como Egito, Líbia e Tunísia. Um processo semelhante pôde ser observado nos protestos na Turquia, numa reação popular a um estado muçulmano fundamentalista defendido pelo Primeiro Ministro Erdogan.  Em todos os casos há padrões que se repetem:
Papel preponderante das redes sócias na organização das mobilizações e na divulgação de imagens que denunciavam os excessos de violência.
Desconexão e ausência de diálogo por parte dos representantes políticos, uma vez que, ou responderam através da força ou simplesmente negligenciaram as reivindicações, evidenciando relações de poder esquizofrênicas e anacrônicas.


O Brasil seguiu uma cartilha semelhante com o gigantesco protesto iniciado pelo Movimento Passe Livre. O que começou como uma luta pela redução de 20 centavos nas passagens de ônibus em São Paulo ganhou a adesão de diversas bandeiras e desencadeou a maior manifestação da história do país, com uma diferença bem pontuada pelo sociólogo espanhol Manuel Castells: O fato de Dilma Rousseelf ter demonstrado uma abertura ao diálogo que não ocorreu nos casos anteriores. Ao sugerir um plebiscito para a reforma política ela confere poder ao povo para tomar decisões importantes, mesmo contrariando o modus operandi do Congresso Nacional e gerando insatisfação generalizada entre os seus representantes. Em um momento de exceção, no qual as instituições e as maneiras tradicionais de participação mostram-se insuficientes e ineficientes, novas formas de construção popular e coletiva se fazem necessárias. 

terça-feira, 26 de julho de 2011

Mais ou menos...humanos?





Cada vez que ligo a TV, ou leio as manchetes, encontro situações que me surpreendem, tanto pelo grau da barbárie, quanto pelo nível de intolerância ainda existente, num mundo que muitos consideram evoluído.
Notícias de violência gratuita já são lugar comum na imprensa, como aquela que relatava a história de um pai e um filho que foram atacados durante um rodeio, porque foram confundidos com gays. Como se a opção sexual de alguém fosse justificativa pra esse tipo de violência.



O incrível é que para muitos essa é sim uma boa razão e os responsáveis, em sua maioria, não são os pobres, aqueles a quem normalmente são atribuídos os crimes violentos (vide Datena e similares). Os crimes de intolerância costumam vir dos “bem nascidos”, dos que tiveram acesso à educação, aos bens de consumo, e a um repertório cultural que, em tese, deveria fazer deles pessoas melhores. Ledo engano! Isso não aconteceu, e talvez as vantagens tenham dado a essas pessoas o falso senso de superioridade que as orienta a agir assim. Viver em um mundo dominado pelo preconceito e classificações que dividem o planeta entre os “mais ou menos” humanos, de acordo com critérios étnicos e culturais arbitrários é um desafio que tem crescido cada vez mais, principalmente porque, ao contrário da violência gerada pela pobreza e pela exclusão, essa não é gerada pela falta de oportunidades.



Não que uma seja melhor que a outra, mas a violência da qual estamos falando é mais difícil de ser combatida, porque vem justamente de uma certeza absoluta e cegante de que existe um padrão para a orientação sexual, para a cor, para o gênero, e consequentemente, em um nível mais extremo, existe o ódio como resposta a tudo que não se assemelhe ao “padrão”.


Recentemente assistimos atônitos ao atentado terrorista que vitimou várias pessoas na Noruega e, contrariando uma percepção preconceituosa e errônea, o ato não veio de nenhum muçulmano (como se o terrorismo fosse uma exclusividade deles, ou estivesse intrinsecamente ligado àquela cultura). O atentado veio de dentro e foi motivado pela mesma certeza de superioridade citada anteriormente. O atirador Anders Behring Breivik escreveu um manifesto no qual acusava a Europa de seguir um caminho semelhante ao do Brasil, no que refere-se à miscigenação e mistura de culturas, experiência que ele apontava como a responsável pelos “problemas” e atraso do país.


Essa visão estereotipada, capaz de atribuir mais ou menos humanidade a determinados grupos, fez com que outros garotos “bem nascidos” ateassem fogo ao índio pataxó Galdino Jesus dos Santos em Brasília, além de outros incontáveis crimes contra a vida. Quando entrevistados disseram que pensavam se tratar de um mendigo.


Mais uma vez o discurso demonstrou claramente a ausência de empatia e a total falta de humanidade, ou “excesso” dela, já que cada vez me convenço mais, salvo raras exceções, de que a espécie é realmente auto-destrutiva. No fim das contas, são as excessões que mantêm minha crença nas possibilidades de mudança.

domingo, 31 de outubro de 2010

Os desafios de Rousseff



Quando a filósofa Marilena Chauí disse que pertencemos a uma geração privilegiada, pelo fato de termos presenciado transformações políticas importantes, eu me identifiquei imediatamente com ela. A vitória de Lula há oito anos atrás representou a ruptura com uma tradição política elitista e oligárquica. O simples fato do ex-torneiro mecânico assumir o cargo mais importante do país já significava um enorme avanço. Claro que a história não o perdoaria se ele não fosse, no mínimo, melhor que seus antecessores. E foi o que de fato aconteceu.

Embora tenha tido uma vitória esmagadora sobre o adversário José Serra, Lula não contava, obviamente com a simpatia das elites brasileiras. O preconceito pela origem humilde e por não possuir um diploma de curso superior eram explícitos, por parte dos mais diversos setores da sociedade. Anos depois, mesmo com escândalos envolvendo membros de seu governo e a perseguição constante por parte da ala mais conservadora da imprensa, Luiz Inácio da Silva chega ao final de seu governo com o maior índice de aprovação já experimentado por um presidente brasileiro.


Fazendo um breve retrospecto, o governo de Lula colocou o país como uma das principais lideranças mundiais, melhorou a distribuição de renda do país e ampliou o acesso ao ensino superior, embora os investimentos na educação básica ainda sejam insuficientes.

O saldo é positivo em todos os aspectos, o sucesso do governo petista abriu precedentes importantes em termos de políticas sociais, culturais e econômicas, além de situar o presidente como uma das figuras mais influentes do quadro político internacional, admirado inclusive pelo atual presidente dos EUA, Barack Obhama, cuja eleição também representou uma quebra de paradigmas pelo fato de representar o retorno dos democratas ao poder, após anos do desastroso governo republicano de George W Bush, e por ser o primeiro negro a ocupar a cadeira da nação mais poderosa da terra. Isso cerca de 40 anos após a luta pelos direitos civis naquele país.


A eleição de Dilma Roussef para a Presidência da República representa, para mim, um passo tão importante quanto o que foi dado há oito anos atrás, com a vitória de Lula. Estamos diante de outra ruptura, temos uma mulher no poder em uma sociedade ainda patriarcal. Segundo, Dilma representa a continuidade de um projeto social que mudou o panorama do país.


A campanha presidencial também ficará marcada na história por razões menos dignas de orgulho, como o tom religioso que predominou durante boa parte da campanha. Ao mesmo tempo em que a discussão sobre o aborto saiu do campo da saúde pública para o reducionismo moralista da questão. O Brasil se mostrou um país conservador em vários aspectos, embora o fator “Lula” tenha prevalecido no final.
E será justamente este um dos maiores desafios de Dilma, a figura mítica do presidente mais popular da história do país até então.

Na ocasião em que Lula assumiu a Presidência do país em 2003 eu acabava de ingressar na faculdade, hoje sou o primeiro homem da minha família a conquistar um diploma de curso superior. Motivo de alegria e de preocupação já que segundo dados do IBGE o percentual de negros com formação universitária ainda é de apenas 4,7%, embora tenha aumentado nos últimos anos, ao passo em que o percentual de brancos é de 15%. Mais um desafio, entre muitos, a ser enfrentado pelo próximo governo.