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sexta-feira, 3 de julho de 2015

FAVELA AINDA É SENZALA, JÃO...


Novo vídeo de Emicida escancara a violência das relações sociais e raciais no Brasil


“Boa esperança” nova música do rapper paulistano Emicida traz sem reticências a raiva e a indignação de quem sempre se viu à margem e sempre foi tratado como sub espécie, sub cidadão, sub...Tudo.  Nestes dias em que a tensão racial volta a ser pauta nas terras do Tio Sam, após  os assassinatos de Michael Brown, em Ferguson, e de Freddie Gray, em Baltimore, a abordagem não poderia ser mais pontual e cirúrgica.  Enquanto isso, no Brasil dos Amarildos e Cláudias, assassinados e sempre anônimos e estigmatizados, as redes sociais tornam-se palco das discussões raciais caladas há séculos por aqui. A jornalista Maria Júlia Coutinho, negra atacada verbalmente na internet por ousar ser a nova "moça do tempo" do Jornal Nacional, torna-se o mais recente símbolo da intolerância racial tupiniquim, ainda vista como uma exceção por aqui.

“Boa Esperança” traz um título irônico.  Ao discorrer sobre o tema da desigualdade social e racial, Emicida apresenta um resumo que mistura relato à fúria e sofrimento. A narrativa do videoclipe dirigido por Kátia Lund (Cidade de Deus) mostra a história de empregadas domésticas que se rebelam contra seus patrões. Sob a trilha sonora impactante e direta são apresentadas as cenas em que senzala toma o lugar da casa grande.  
O vídeo, violento, como é o tema abordado, muda os papéis historicamente conhecidos ao transformar as vítimas habituais em algozes e explicitar o que tem sido negado ao longo dos anos: a “abolição” atendeu a uma necessidade mercadológica, mas não alterou em nada as relações. Os resquícios da sociedade escravocrata permanecem, com os mesmos “sinhozinhos” e capitães do mato. Sintomático no país em que os quase 50% da população, declarados afrodescendentes,  representam mais de 80% dos pobres e são maioria da população carcerária. Já dizia a letra de Marcelo Yuka “Todo camburão tem um pouco de navio negreiro” e acrescento, tem muito!

O vídeo não é apontado como o mais corajoso de 2015 à toa.  É um momento singular da nossa história, em que o conservadorismo sai do armário e mostra garras e dentes para manter posições e privilégios. Tratar de um assunto como este, sempre tratado como tabu, quando não abordado de forma maliciosa atribuindo a existência do preconceito aos próprios negros.
A produção vem sendo taxada de violenta, mas se esquecem que as relações sociais estabelecidas no país são violentas. A violência começa na desigualdade, na disparidade de oportunidades, na proposta punitiva da redução da maioridade penal sem que ao menos se pense em formas de oportunidades iguais aos jovens que querem trancafiar. Diante de tudo isso, do contexto histórico de violência, invisibilidade e exclusão, o  vídeo é apenas uma alegoria "leve" que nem chega a inverter os papeis, apenas apresenta uma possível reação.

 Emicida não se intimida e deixa claro e marcado o seu lado.  O recado foi dado de forma didática.  Uma maioria segregada circula por aí e se os dados não incomodam é preciso chocar pela força das palavras e das imagens.
“Favela ainda é senzala, Jão, bomba relógio prestes a estourar”


domingo, 1 de fevereiro de 2015

Racionais – Cores e Valores (2014)




Muito pode ser dito sobre o aguardado quinto disco do Racionais MCs. As opiniões divergem mas ninguém discorda quanto à quebra de expectativa que o álbum provoca.
12 anos depois de “Nada como um dia após o outro dia” eles retornam com “Cores e Valores” e a novidade não está apenas no fato de lançarem um novo trabalho após mais de uma década, mas na própria forma como o grupo se apresenta. A mudança é perceptível, nítida e causou as mais diversas reações. A essa altura o novo álbum já é sucesso de crítica sendo considerado um dos melhores lançamentos de 2014, o melhor, segundo a lista da Rolling Stone publicada em janeiro de 2015.
Os elogios angariados pela nova obra são por razões óbvias. A primeira: é um novo disco do Racionais MCs, e, isso por si só já diz muito. Trata-se da banda mais importante do rap brasileiro e, superando fronteiras e preconceitos, tornaram-se um dos nomes mais relevantes da música produzida no Brasil nos últimos 20 anos.

O quarteto paulistano também optou pelo risco e foi uma escolha sem medo, e feliz. As músicas são curtíssimas se comparadas com os trabalhos anteriores, clássicos como O Homem na Estrada e Capítulo 4, Versículo 3, têm 8 e 7 minutos, respectivamente, enquanto as faixas de “Cores e Valores” tem duração média de 2 a 4 minutos. O novo trabalho do Racionais MCs resgata o conceito de álbum, do diálogo entre uma música e outra em uma obra, coisa difícil de se manter em tempos de downloads e streamings. Saíram na frente com a proposta. O próprio KL Jay alerta que este é um disco para ser ouvido na íntegra, na sequência proposta.

Os temas abordados também se diversificaram. Para além das dificuldades da periferia brasileira (e até essa crítica assumiu outro tom), o Racionais falam agora das vitórias alcançadas e de amor. Os fãs mais ortodoxos esperavam algo parecido com o que foi apresentado em 2002, quando “Nada como um Dia após o outro dia” foi lançado, mas aquele trabalho já rompia com a narrativa de violência e exclusão apresentada em Sobrevivendo no Inferno (1997).

A realidade é que para muitos o Racionais havia se tornado muito mais que um grupo de rap. O quarteto paulistano se transformou em um símbolo, cujas ações, falas e  frases foram apropriadas por todos os que se sentiam representados por elas e a reação a qualquer mudança de postura não seria amena, tamanha a importância que seus discursos ganharam, mesmo que não se sentissem tão a vontade com isso.
Enfim. O Brasil mudou, a realidade dos integrantes do Racionais idem e, nada mais natural que a música feita por eles acompanhasse essa mudança.
O discurso já se mostra ácido no início quando Brown declama “Na terra onde o herói matou um milhão de índios” e segue. O grupo continua falando do lugar de onde vierem, sob uma nova perspectiva, mas é do lugar do negro. Ice Blue acentua seu poder de consumo na faixa “Eu compro”, mas deixa claro que nem o poder aquisitivo altera o fato de ser um negro no Brasil:
 “um pingente de ouro com diamante safira, no pescoço  um cordão os bico vê não acredita, que um neguim sem pai que insiste pode até chegar, entrar na loja ver uma nave zero e dizer, eu quero eu compro e sem desconto, à vista, mesmo podendo pagar tenha a certeza de que vão desconfiar, pois o racismo é disfarçado há muitos séculos, não aceita seus status, nem sua cor”.

Os versos acima talvez sejam um pouco do que representa “Cores e Valores”. O indivíduo negro que outrora somava-se à massa de despossuídos ostenta uma vitória e uma condição que nunca lhe foi atribuída ou permitida.  Possibilidade proibida, quase como uma afronta, e que agora é assumida, fazendo coro aos garotos do “rolézim” e aos pobres que agora incomodam a classe média brasileira quando ocupam, sem pedir licença, shopping centers e aeroportos.

Em “Você me Deve” Brown exclama “Vida loka original, dos barracos de pau. Percebeu, que o vil metal só não quer quem morreu, morou meu? ”
Os Racionais , como não poderia deixar de ser, continuam a cantar a periferia, mas uma periferia que percebe seu poder, ganhou alguma mobilidade – ainda que mínima -  e quer mais, muito mais do que falar das suas mazelas. Quer espaço. Quer poder. Quer voz, num momento em que tem condições para tanto. A capa de Cores e Valores reflete essa periferia, que não vai pedir licença e vai ocupar o lugar que lhe é devido. É trajetória do próprio grupo, descrita de forma metafórica naquela imagem. Uma espécie de síntese das batalhas empreendidas em 25 anos, período em que viveram no front e tiveram que lidar com o peso da narrativa apresentada por eles bem como os ataques de um país moralista, elitista e, desde sempre, racista. 
  
 O disco abre espaço também para a auto-reflexão do grupo que completa duas décadas e meia e experimentou episódios gloriosos e tristes. Em “A Praça” Edi Rock relembra o evento trágico acontecido durante o show da banda na Virada Cultural 2007, que resultou em diversos feridos na Praça da Sé.  Fato superado. Os sobreviventes do inferno mostraram em sua turnê comemorativa o quanto estão amadurecidos bem como a capacidade agregadora do seu discurso, que hoje  atinge jovens e adultos das mais diversas classes e localidades. A voz forte de Edi Rock retorna em “O Mal e o Bem”, faixa que traz elementos da música negra produzida em meados dos anos 80, a qual o rapper relembra os 25 anos de trajetória e os momentos marcados pela música do grupo.

“Quanto vale o show”, primeira música do novo trabalho a ser divulgada, traz o sampleia “Gonna fly Now”, tema de Rocky o Lutador. A trilha é emblemática e, a exemplo de “O mal e o Bem” também é saudosista. Brown relembra sua juventude na selva de pedra paulistana, os primeiros bailes, as dificuldades financeiras e sua relação com o samba e o soul, com ídolos como Curtis Blow e Bezerra da Silva. O verso é viceral e tenta trazer a energia daqueles dias e denuncia que, ainda naquela época “O preto vê mil chances de morrer, morô? Com roupas ou tênis sim, por que não?”.  Anos atrás Mano Brown foi surpreendido com a reação virulenta dos fãs contra a sua “Mulher elétrica”, música dançante, com base funk sampleada do clássico Eletric Lady (Confunkshun). Sem se intimidar, Paulo Soares apresenta outra balada soul com “Eu te Proponho”, primeira letra romântica da discografia do Racionais, homenageando mestres como Cassiano, já apresentando um pouco do que pode vir a ser o seu já anunciado disco solo.
Embora não seja o tema principal, o crime e a violência continuam a ser tratados nos versos do grupo, como na faixa “A escolha que eu fiz”. 

Cores e Valores não é unanimidade, como nenhum dos álbuns anteriores, embora possa ser o mais controverso eles, mas, assim como os demais, demarca sua passagem com dignidade.


terça-feira, 8 de outubro de 2013

RESPEITO É PRA QUEM TEM

A história de Sabotage é a síntese da saga do próprio rap nacional, inicialmente desacreditado, oriundo dos grotões das periferias dos grandes centros e hoje é celebrado e respeitado até mesmo por quem jamais teve o menor contato com a arte.
A trajetória de Mauro dos Santos, o Sabotage, se confunde com a de milhares de jovens rappers que surgiram durante a segunda metade da década de 90, inspirados por nomes como Thaíde e DJ Hum, Racionais MCs, Gog, Possemente Zulu, Câmbio Negro...
O Poeta do Canão, nome dado em referência à favela em que ele cresceu, na zona sul de São Paulo, era a representante vivo, autêntico e sem maquiagem, de uma parcela do país que, embora numerosa, permanecia invisível para os meios de comunicação. Preto, pobre e artista de um segmento tratado, até então, como uma espécie de subcultura praticada pelos iletrados e alijados da “alta cultura”, sempre distantes dos recursos que lhes possibilitariam produzir “música de qualidade”.

Quando muito, o trabalho recebia um olhar condescendente de quem o compreendia como expressão exótica de garotos favelados que precisavam manifestar suas mazelas e revoltas. Sabotage significou, entre outras coisas, uma quebra de paradigmas no terreno então pouco conhecido do rap brasileiro. Com raríssimas exceções, entre as quais estão artistas como Racionais MCs (ícones máximos do gênero), poucos discos de rap haviam recebido, naquela época, tratamento que os colocasse em pé de igualdade com outros lançamentos do mercado fonográfico nacional. Rap é Compromisso, seu único álbum, já nasceu clássico.  Produzido por Daniel Ganjaman, saiu pelo selo “Cosa Nostra” do próprio Racionais, com distribuição da multinacional Sony Music, além de receber a valiosa chancela do RZO, grupo responsável por mudanças significativas no rap paulistano e, consequentemente, no rap nacional como um todo.

O rapper não passou a integrar a programação das emissoras comerciais de rádio, movidas pela lógica do jabá, mas entrou para o primeiro time do chamado “undergrownd”, numa escalada que muitos consideraram repentina. Além de contar com participações em seu álbum de figuras como Black Alien (então, vocal do Planet Hemp), Chorão (Charlie Brown Jr), Rappin Hood e outros nomes respeitados na cena de São Paulo como Sombra e Bastardo (SNJ) e  Ébano (Potencial 3) , Sabotage participou de gravações com Sepultura, B Negão, SP Funk, dividiu o palco e cenas com o titã Paulo Miklos, recebeu o prêmio de melhor trilha sonora pelo filme “O Invasor”, verdadeiro marco do cinema nacional, e ainda viveu o personagem “Fuinha” no bem sucedido Carandiru, longa metragem de Hector Babenco, onde contracenou com Wagner Moura, Rodrigo Santora e a eterna “ex-chacrete”, Rita Cadilac.
Toda essa ascensão "meteórica” aconteceu no período de um ano, tempo entre o lançamento do seu disco e a morte violenta que interrompeu sua carreira. Não são poucos os que atribuem ao trabalho do velho Sabota uma boa parcela da responsabilidade pelo respeito que o rap alcançou recentemente. E o papel do  seu trabalho é inegável, sem dúvida. Mauro dos Santos foi um dos primeiros a romper com um certo tradicionalismo e provar que a interlocução com outros segmentos era possível, mais que isso, era desejável e necessária. Mostrou na prática que ocupar os espaços e manter a autenticidade não eram coisas incompatíveis, e abriu precedentes para que uma vindoura geração de MCs seguisse caminhos antes inalcançáveis e até condenados dentro do universo das rimas e batidas.
Sabotage quebrou uma certa noção preestabelecida de “limites” para os padrões do rap nacional e rompeu com a própria invisibilidade decorrente da sua cor e classe social. A história do jovem que abandonou o tráfico por ter encontrado na arte uma alternativa traz reflexões importantes sobre outros potenciais que se perdem pela ausência de oportunidades, falta reforçada pelas políticas cegas e ineficazes de combate ao crime, mais centradas em gerar corpos e prisões do que em desenvolver ações capazes de promover a inclusão.

Tive a feliz oportunidade de conversar com Mauro Mateus, antes mesmo de tudo o que aconteceu com a sua música, ainda no início da carreira. "Maurim", como era chamado pelos mais próximos, era simples, dono de uma inteligência inata que lhe permitia vislumbrar horizontes a quilômetros de distância. Na época ele sugeriu de nos ajudarmos mutuamente, quando os respectivos CDs fossem lançados. Nunca mais o vi. Já naqueles dias ele contava com as bênçãos dos gigantes lendários do rap brazuca (Racionais, Thaíde, Rappin Hood...), mesmo assim tinha a sensibilidade de perceber que o caminho era construir pontes.  Sabotage representou a todos nós e ensinou também que “rap é compromisso, não é viagem...” Assim como um de seus versos, ele não fez sua "parte pela metade", e deixou bem claro que “respeito é pra quem tem”.