sábado, 19 de outubro de 2013

TEXTOS, ERROS, ACERTOS E RASCUNHOS


Quando ingressei na faculdade de jornalismo, em 2003, minha professora de produção de texto, Regina Motta, chamou a atenção para algumas deficiências da minha escrita. Naquela altura do campeonato o remédio era me dedicar bastante, tanto à leitura quanto à produção textual. Não que isso fosse algum sacrifício. A ideia de aprender e compartilhar isso de alguma forma me fascinava, e muito.
 Júlio César Buere, então meu professor de ciências políticas, havia dito que escolhemos “uma vida ao lado de livros”, outra ideia que me agradou em cheio e me perseguiu ao longo dos anos. Daí virei consumidor ávido, embora ainda leia e escreva bem menos do que gostaria.
Essa necessidade prática de articular e registrar ideias me levou à criação do blog “No Foco”, espaço para exercitar o pensamento e aprimorar habilidades necessárias ao ofício que escolhi. Hoje, quando vejo várias das minhas postagens encontro ideias das quais me orgulho, mas que foram mal articuladas, textos que me dão plena satisfação por tê-los escrito e outros totalmente dispensáveis, até mesmo na finalidade. Mas mesmo estes trabalhos menos dignos de ostentação foram necessários e dizem muito sobre quem fui, quem sou e trazem alguns dos porquês de eu ter traçado determinados caminhos.
É meio que uma metáfora da vida. Acho que todo mundo arrisca um pouco da sua porção filósofa em determinados momentos, no meu caso, aniversários sempre despertam alguma reflexão sobre minha própria trajetória, com seus erros, acertos, tentativas, avanços, recuos, interrogações, exclamações e reticências...
Assim como meus textos, meu caminho nessas mais de três décadas de vida possui partes das quais gosto muito e outras nem tanto. Obviamente fico com o saldo positivo de tudo e, olhando daqui, alguns episódios me parecem dignos de esquecimento, mas tiveram seu papel na minha formação pessoal e até me ensinam da importância das tentativas e do valor dos equívocos, que muitas vezes ensinam mais que muitos acertos. Aliás, perfeição é algo muito chato (irreal até) e não pretendo persegui-la. O que não é uma muleta para a repetição dos erros.
Olhando adiante, o que me impulsiona são as tentativas que me permitirão novos aprendizados. E me interessa muito mais a liberdade, sem amarras e obrigações com as “certezas”, do que as hesitações.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

RESPEITO É PRA QUEM TEM

A história de Sabotage é a síntese da saga do próprio rap nacional, inicialmente desacreditado, oriundo dos grotões das periferias dos grandes centros e hoje é celebrado e respeitado até mesmo por quem jamais teve o menor contato com a arte.
A trajetória de Mauro dos Santos, o Sabotage, se confunde com a de milhares de jovens rappers que surgiram durante a segunda metade da década de 90, inspirados por nomes como Thaíde e DJ Hum, Racionais MCs, Gog, Possemente Zulu, Câmbio Negro...
O Poeta do Canão, nome dado em referência à favela em que ele cresceu, na zona sul de São Paulo, era a representante vivo, autêntico e sem maquiagem, de uma parcela do país que, embora numerosa, permanecia invisível para os meios de comunicação. Preto, pobre e artista de um segmento tratado, até então, como uma espécie de subcultura praticada pelos iletrados e alijados da “alta cultura”, sempre distantes dos recursos que lhes possibilitariam produzir “música de qualidade”.

Quando muito, o trabalho recebia um olhar condescendente de quem o compreendia como expressão exótica de garotos favelados que precisavam manifestar suas mazelas e revoltas. Sabotage significou, entre outras coisas, uma quebra de paradigmas no terreno então pouco conhecido do rap brasileiro. Com raríssimas exceções, entre as quais estão artistas como Racionais MCs (ícones máximos do gênero), poucos discos de rap haviam recebido, naquela época, tratamento que os colocasse em pé de igualdade com outros lançamentos do mercado fonográfico nacional. Rap é Compromisso, seu único álbum, já nasceu clássico.  Produzido por Daniel Ganjaman, saiu pelo selo “Cosa Nostra” do próprio Racionais, com distribuição da multinacional Sony Music, além de receber a valiosa chancela do RZO, grupo responsável por mudanças significativas no rap paulistano e, consequentemente, no rap nacional como um todo.

O rapper não passou a integrar a programação das emissoras comerciais de rádio, movidas pela lógica do jabá, mas entrou para o primeiro time do chamado “undergrownd”, numa escalada que muitos consideraram repentina. Além de contar com participações em seu álbum de figuras como Black Alien (então, vocal do Planet Hemp), Chorão (Charlie Brown Jr), Rappin Hood e outros nomes respeitados na cena de São Paulo como Sombra e Bastardo (SNJ) e  Ébano (Potencial 3) , Sabotage participou de gravações com Sepultura, B Negão, SP Funk, dividiu o palco e cenas com o titã Paulo Miklos, recebeu o prêmio de melhor trilha sonora pelo filme “O Invasor”, verdadeiro marco do cinema nacional, e ainda viveu o personagem “Fuinha” no bem sucedido Carandiru, longa metragem de Hector Babenco, onde contracenou com Wagner Moura, Rodrigo Santora e a eterna “ex-chacrete”, Rita Cadilac.
Toda essa ascensão "meteórica” aconteceu no período de um ano, tempo entre o lançamento do seu disco e a morte violenta que interrompeu sua carreira. Não são poucos os que atribuem ao trabalho do velho Sabota uma boa parcela da responsabilidade pelo respeito que o rap alcançou recentemente. E o papel do  seu trabalho é inegável, sem dúvida. Mauro dos Santos foi um dos primeiros a romper com um certo tradicionalismo e provar que a interlocução com outros segmentos era possível, mais que isso, era desejável e necessária. Mostrou na prática que ocupar os espaços e manter a autenticidade não eram coisas incompatíveis, e abriu precedentes para que uma vindoura geração de MCs seguisse caminhos antes inalcançáveis e até condenados dentro do universo das rimas e batidas.
Sabotage quebrou uma certa noção preestabelecida de “limites” para os padrões do rap nacional e rompeu com a própria invisibilidade decorrente da sua cor e classe social. A história do jovem que abandonou o tráfico por ter encontrado na arte uma alternativa traz reflexões importantes sobre outros potenciais que se perdem pela ausência de oportunidades, falta reforçada pelas políticas cegas e ineficazes de combate ao crime, mais centradas em gerar corpos e prisões do que em desenvolver ações capazes de promover a inclusão.

Tive a feliz oportunidade de conversar com Mauro Mateus, antes mesmo de tudo o que aconteceu com a sua música, ainda no início da carreira. "Maurim", como era chamado pelos mais próximos, era simples, dono de uma inteligência inata que lhe permitia vislumbrar horizontes a quilômetros de distância. Na época ele sugeriu de nos ajudarmos mutuamente, quando os respectivos CDs fossem lançados. Nunca mais o vi. Já naqueles dias ele contava com as bênçãos dos gigantes lendários do rap brazuca (Racionais, Thaíde, Rappin Hood...), mesmo assim tinha a sensibilidade de perceber que o caminho era construir pontes.  Sabotage representou a todos nós e ensinou também que “rap é compromisso, não é viagem...” Assim como um de seus versos, ele não fez sua "parte pela metade", e deixou bem claro que “respeito é pra quem tem”.

domingo, 30 de junho de 2013

O QUE HÁ DE NOVO?

*Foto: Segundo dia de manifestações em Belo Horizonte/ Minas Gerais

Movimentos como a Primavera Árabe, Ocuppy Wall Street, os protestos na Turquia e a onda de manifestações no Brasil, são indícios claros de que os atuais modelos de representação política passam por uma grave crise de legitimidade. Há uma dissonância perceptível entre os anseios dos grupos sociais e as direções tomadas por seus líderes. 
O Ocuppy Wall Street (2011) pode ser apontado como um dos mais emblemáticos, não pelo grau de importância em relação a outros movimentos, mas por evidenciar disparidades sociais claras, isso bem no centro do capitalismo mundial, os Estados Unidos da América.
O slogan “we are the 99%” chamava a atenção para o quanto custa manter as riquezas e privilégios de uma minoria, os “1%” mais ricos, em detrimento do restante da população, colocando em xeque a ideologia econômica que tem norteado o American Way of Life e apontando a sua evidente falência.

A primavera Árabe (2010), que é anterior ao Ocuppy, levou pessoas às ruas com o objetivo de derrubar regimes ditatoriais que se mantinham no poder a décadas em países como Egito, Líbia e Tunísia. Um processo semelhante pôde ser observado nos protestos na Turquia, numa reação popular a um estado muçulmano fundamentalista defendido pelo Primeiro Ministro Erdogan.  Em todos os casos há padrões que se repetem:
Papel preponderante das redes sócias na organização das mobilizações e na divulgação de imagens que denunciavam os excessos de violência.
Desconexão e ausência de diálogo por parte dos representantes políticos, uma vez que, ou responderam através da força ou simplesmente negligenciaram as reivindicações, evidenciando relações de poder esquizofrênicas e anacrônicas.


O Brasil seguiu uma cartilha semelhante com o gigantesco protesto iniciado pelo Movimento Passe Livre. O que começou como uma luta pela redução de 20 centavos nas passagens de ônibus em São Paulo ganhou a adesão de diversas bandeiras e desencadeou a maior manifestação da história do país, com uma diferença bem pontuada pelo sociólogo espanhol Manuel Castells: O fato de Dilma Rousseelf ter demonstrado uma abertura ao diálogo que não ocorreu nos casos anteriores. Ao sugerir um plebiscito para a reforma política ela confere poder ao povo para tomar decisões importantes, mesmo contrariando o modus operandi do Congresso Nacional e gerando insatisfação generalizada entre os seus representantes. Em um momento de exceção, no qual as instituições e as maneiras tradicionais de participação mostram-se insuficientes e ineficientes, novas formas de construção popular e coletiva se fazem necessárias. 

quarta-feira, 10 de abril de 2013

“Não me representa” Um pouco do efeito Marco Feliciano nas redes sociais e nos movimentos pelos direitos civis



Feliciano têm sido o assunto do momento, na imprensa, nas redes sociais...  A simples menção do seu nome já suscita discussões acirradas nos ambientes mais diversos, incluindo espaços acadêmicos e igrejas.  Ao assumir a Presidência da Comissão dos Direitos Humanos, este, até então desconhecido pastor evangélico e Deputado eleito pelo PSC –SP conseguiu dois efeitos pontuais: O primeiro, foi levantar o debate sobre os direitos civis dos gays no país, e o segundo foi provocar a reação de uma boa parcela da população (e não importa aqui se é ou não a maioria) que, de fato, não se viu representada por Marco Feliciano, que faz declarações públicas que soam no mínimo estranhas para alguém que está à frente de uma pasta como a da já citada Comissão. 
O Jornalista e blogueiro Reinaldo Azevedo, bem conhecido por suas posições conservadoras e por ter chamado Oscar Niemeyer de “idiota”  em uma publicação que falava da morte do arquiteto, publicou um texto no qual abordava as manifestações contrárias ao pastor e deputado Marco Feliciano, taxando-as de “autoritárias e ditatoriais”.
Segue o link abaixo:
Mandei minha réplica ao texto que considero equivocado em vários aspectos, mas como não fui "publicado", após 5 tentativas, resolvi postá-lo no meu próprio blog. 
Segue:
Discordo totalmente da ideia central do texto.
Só retomando o caso, nem de longe a pressão popular (e não importa se é exercida ou não pela "maioria") se deve ao fato de Feliciano ser evangélico, ou acreditar seja lá no que for.
O principal problema é que o Deputado em questão não possui as "atribuições necessárias" para liderar a Comissão de Direitos Humanos e Minorias., para não dizer diretamente que ele á a pior escolha possível para o cargo! A defesa que muitos irão fazer é: "Mas tudo o que ele disse está de acordo com a Bíblia, etc, etc". Argumento bem desgastado e a discussão idem, mas o fato é que não está em questão o perfil ideológico ou mesmo a visão religiosa pura e simplesmente, mas, repito, a incompatibilidade dessas opiniões com o cargo exercido por ele no momento.
Sim, Reinaldo Azevedo, o mandato de Marco Feliciano como deputado federal é legítimo, escolhido pelo voto da maioria do eleitorado em um sistema democrático. Ok. Mas, definitivamente, essa não é a cerne do debate.
O que é devida e legitimamente questionado é o fato de um deputado que não possui a menor afinidade com o trabalho realizado pela comissão (se ele disser o contrário simplesmente não sabe o que diz), inclusive apresenta argumentos antagônicos a várias das pautas centrais de grupos que estão ali “representados”, ocupar justamente este cargo. Claro que eu sei que você sabe de tudo isso (acho eu). Mas seu texto se afasta, e acho que propositalmente, do motivo real dos protestos e transforma manifestações que só surgiram para que a Comissão de Direitos Humanos não se torne inútil (sim, porque com Feliciano à frente nem sei porque ela deveria continuar existindo) em “gritos de baderneiros” que pedem que o deputado abandone o mandato para o qual foi eleito.
O GRITO (coletivo, diga-se de passagem) é contra uma articulação política irresponsável, na qual o PT se mostrou extremamente equivocado. E pouco importa se Feliciano representa “212 mil pessoas que votaram nele”, isso me parece lógico, uma vez que ele foi eleito por estes, e mais lógico ainda que suas opiniões reflitam a visão do seu eleitorado, mas quem não se sente representado(a) por este homem são justamente as pessoas que veem na Comissão de Direitos Humanos uma voz a favor de suas demandas, que nada mais são que a busca por direitos iguais, em todos os âmbitos, não uma busca por privilégios. Ou isso não é legítimo?
E aí, outra distorção: Marco Feliciano representa outros grupos, muitos e numerosos aliás, e a dita comissão está aí para eles também, mas é necessário que estes “outros” entendam que a comissão tem que ser presidida por quem esteja mesmo disposto a lutar pelas minorias e tenha o olhar sóbrio e isento o suficiente para que analise as reivindicações sem que a visão ideológica ou religiosa interfira. A julgar pelas falas do próprio Feliciano, não é este o caso.
O “não me representa” é o exercício do direito à opinião, dos grupos que sentiram o quanto a comissão perdeu com a escolha. E não importa (de novo, e de novo) se são celebridades ou não. A ênfase neste aspecto é inócua. É cidadania em exercício, só isso.
Ah, e o Parlamento realmente não existe apenas para nos representar (faço parte das minorias mimadas às quais você se refere), mas decisões que interfiram em conquistas da sociedade devem ser sim questionadas, e se uma parcela da sociedade se sentiu incomodada, tem mais é que se fazer ouvir. Não a qualquer custo, mas demonstrar sim a insatisfação.
Os “radicais do teclado” incomodam? Pois os conservadores também. Bem vindo a era da internet! =)
E os gestos simbólicos na internet, ou nas ruas, são válidos e não tem nada de anti-democráticos. Ninguém está cerceando a liberdade alheia, mas fazendo uso do direito à voz. Se incomoda, são outros quinhentos...E é pra incomodar. Fazer afagos não é a intenção. Baseado no seu conceito de participação popular, que parece se restringir apenas ao sufrágio, as passeatas contra a ditadura militar ou mesmo os protestos contra Fernando Collor jamais deveriam ter acontecido, não? Afinal tudo isso é “uma tolice autoritária, de viés ditatorial e um emblema da era da ignorância mimada e saliente”
E antes que eu me esqueça: Sou jornalista, negro, atleticano, hétero,de Belo Horizonte e Feliciano não me representa!

quinta-feira, 14 de março de 2013

“Democracia serve pra que mesmo?” ou “O estranho caso de Marco Feliciano"






Os recentes e bizarros acontecimentos da política nacional puseram em xeque alguns preceitos básicos da democracia. Me refiro, claro, à estranha escolha de Marco Feliciano (PSC - SP) para presidir a Comissão de Direitos Humanos, escolha essa que se deu a revelia das minorias que a tal comissão deveria representar.

Nada com mais cara de piada de mau gosto do que a indicação de alguém com um perfil tão intolerante para a cadeira de uma comissão que precisa discutir questões relativas às liberdades individuais e contribuir para a discussão dos direitos de grupos historicamente marginalizados. A escolha, resultado de um pragmatismo político que ignorou completamente os anseios da população, é uma aberração, na falta de termo melhor.

O Deputado do PSC e pastor evangélico Marco Feliciano incita o ódio, quando declara abertamente seu preconceito em relação aos homossexuais, justifica o racismo e contribui para a demonização das tradições afro-brasileiras quando atribui as mazelas do continente africano (e a própria situação dos negros em todo o mundo) ao “paganismo”, demonstrando uma visão estreita, típica de quem não está pronto para lidar com a diversidade, características totalmente incompatíveis com as atribuições do cargo em questão.

Não tardaram as piadas nas redes sociais nas quais o traficante Fernandinho Beira Mar aparecia como nome para a Comissão Especial de Políticas Públicas e Combate às Drogas. Talvez as pessoas não se deem conta, mas ele teria tanta afinidade com a função quanto Feliciano, talvez mais, já que ele de fato se dá conta dos problemas relacionados ao uso de drogas, ao passo que o pastor é norteado por ideologias oriundas da idade média e possui uma sensibilidade limitada, se não inexistente, em relação ao “outro”.

A indicação do Deputado para o cargo ocorreu no dia 06/03 e gerou protestos dos mais diversos, principalmente por parte dos grupos diretamente afetados.
No mesmo dia, manifestações contrárias ao nome pipocaram nas redes, numa demonstração clara de que a população não estava de acordo.
No dia seguinte, 07/03, a votação aconteceu de portas fechadas, sem a presença daqueles que poderiam se manifestar contra, numa afronta direta às práticas democráticas. A Câmara dos Deputados se viu desmoralizada ao perceber o alto índice de rejeição ao nome do novo presidente da Comissão.

Nos dias que se seguiram os protestos chegaram às ruas, com passeatas em dezenas de cidades. Petições Públicas foram assinadas e as declarações contrárias ao seu nome se intensificaram nas redes sociais, contando inclusive com a adesão de famosos como os apresentadores globais Xuxa e Luciano Huck. Até mesmo alguns representantes da comunidade evangélica se pronunciaram contra a permanência de Marco Feliciano no cargo.

Nada disso surtiu efeito, então fica no ar a questão: Como podemos acreditar que vivemos numa sociedade democrática se a vontade do povo não é respeitada?
A essa altura do campeonato ele com certeza está sorrindo, com a plena certeza de que as os protestos são inúteis. O caso em questão contraria tudo que sempre defendi no que diz respeito à participação efetiva das pessoas nas questões públicas. A ironia é que, pelo menos neste episódio, quem nunca acreditou na força das mobilizações e sempre defendeu que se trata de um jogo de cartas marcadas, estava certo.
Em alusão ao artigo da Carta Capital: Não se trata de um dia para ser esquecido, mas de dias para serem esquecidos.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

A um passo do fim do mundo... ou do dia seguinte!


Foto: EFE

Chegamos ao tão anunciado “fim do mundo”. Não me dei ao trabalho de pesquisar a fundo, mas toda essa história vem de uma profecia maia, cujo calendário previa um desastre global de proporções cataclísmicas para o dia 21/12/12. Há quem leve isso muito a sério.  Da minha parte, não acho que exista alguém capaz de prever com exatidão o nosso último e fatídico dia neste planeta, por outro lado, nada mais sábio e pragmático que tratar cada dia como se fosse o último, porque, apesar de soar clichê, não existem mesmo as tão desejadas garantias. Nos deparamos com “o fim do mundo” todos os dias, só não nos damos conta.

Em um debate que assisti, discutia-se o quanto algumas pessoas temem o armagedon, enquanto outras, por razões religiosas, anseiam por este momento, com a esperança de que a humanidade resurja purificada ou que restem apenas aqueles escolhidos por suas boas ações ao longo da vida. Discurso comum a quase todas as crenças, com as suas devidas adaptações.
Talvez as pessoas prefiram um tal “fim” que cesse com os problemas, dilemas, sofrimentos e, de brinde, ainda traga a esperança de que o pós seja melhor que o agora.

Afinal, o mundo, tal como se apresenta na prática, está longe de cumprir qualquer utopia. Não se separa os “bons” dos “maus” como muitos gostariam (até porque somos ambos) e a “justiça” escolhe o lado que lhe convém e raramente é justa.
Na verdade, se avaliarmos a balança friamente, notaremos um desequilíbrio global gritante. Trata-se de um mundo em que o poder de consumo e o acesso à educação concentram-se nas mãos de poucos, submetendo, consequentemente, milhares às formas mais perversas de violência. A privação é, para mim, uma das maiores violências, pois ela gera outras e mantém suas vítimas sempre à margem, como massa de manobra, submetidas à violência física, à ignorância e sempre suscetíveis às manipulações e desmandos de alguns “eleitos”.

Apesar dos pesares, não sou adepto do pessimismo, e insisto em dizer que se o mundo não é ainda aquele que almejamos (e provavelmente nunca será), ele já é melhor do que o que tínhamos "ontem", e trabalhamos sempre no sentido de torná-lo mais "humano", menos individualista e com espaço para as diferenças. No fim das contas,  esperar uma realidade sem problemas é uma ideia totalmente irreal, mas não quer dizer que não tentaremos superá-los.

Voltando ao fim do mundo, que é o que interessa, sempre andamos no fio da navalha, e isso causa um fascínio mórbido.

Nos anos 80 vivíamos sob a ameaça de um holocausto nuclear, o que foi refletido em filmes como “O dia depois de amanhã” e serviu de plano de fundo para “Watchmen”, apontada como a obra máxima dos quadrinhos modernos. O primeiro tratava do medo concretizado, a guerra avassaladora entre as duas potências bélicas daquele momento: EUA e União Soviética. Já o segundo, explorava a paranoia, o medo vivido naqueles dias e até o cinismo inerente à humanidade diante do fim iminente. Hoje, não temos mais o risco do conflito atômico (pelo menos pensamos assim), mas persistem questões como a fome, a guerra, abuso de poder e ainda esperamos pelo dia seguinte.
Na expectativa do choque com algum meteoro, ou simplesmente por mais um dia em que novas profecias sobre o fim de tudo surgirão. Todos esperando o momento certo para nos tornarmos melhores, com nós mesmos e com os outros, quando o melhor seria compreendermos que este momento é agora.

domingo, 12 de agosto de 2012

O debate em torno da administração Lacerda



Bater na administração Lacerda (PSB) virou lugar comum, principalmente entre a classe artística de Belo Horizonte. O “Fora Lacerda” ganhou força através das redes sociais e ecoou, desfazendo a idéia tão divulgada de unanimidade em relação à aprovação da gestão do Prefeito, eleito através do que chamam de aliança “ornitorrinco”, dado o grau de estranheza: a impensável chapa PT e PSDB (!!!)

De fato o nível de aprovação de Lacerda entre a maior parte da população belohorizontina não é baixo, mas ao mesmo tempo me ocorre que a população brasileira como um todo desenvolveu um olhar preguiçoso sobre a política e nem temos uma base cultural fortalecida o suficiente, que possa favorecer qualquer análise mais criteriosa em relação aos nossos governantes. 
Conceitos como respeito à cidadania, liberdade de expressão, ainda soam vazios, alienígenas até, o que nos torna pouco exigentes. Basta um político não se envolver em escândalos de corrupção para que seja considerado “um bom político”. Talvez seja esse o caso do prefeito. Daí, não é de se estranhar que um político que fira qualquer um dos princípios citados não incomode uma boa parcela da população. O grau de alienação em relação a tais conceitos é tão grande que a “falta” deles não causa comoção, até porque falamos de um povo que nunca teve acesso real a tudo isso.

O caso da prefeitura é emblemático. Desde o início de sua gestão, Márcio Lacerda demonstrou pouca capacidade de diálogo, principalmente com o setor cultural (músicos, produtores, diretores de teatro, atores...), além de evidenciar um olhar equivocado de que a cidade poderia funcionar como uma empresa, onde é possível simplesmente demitir ou falar mais alto que os descontentes, como ficou evidente em uma reunião em que o prefeito se desentendeu com um dos recém empossados Conselheiros Municipais de  Cultura, e ordenou, sem cerimônia, que ele fosse retirado da sala. 

 Mais recentemente ele voltou a ser alvo de críticas com os seus “abrigos anti-mendigos”.  A imagem que se espalhou rapidamente pelas redes sociais (elas novamente) revelava que  pedras pontiagudas foram colocadas por debaixo de um determinado viaduto da cidade, com o objetivo de impedir que os "indigentes " se abrigassem no local. A prefeitura se manifestou dizendo que as pedras tinham o intuito de coibir a ocupação irregular, por se tratar de um lugar que oferece risco à vida, devido à possibilidade de alagamento.   Digamos que a preocupação seja realmente genuína. Ainda assim a forma é equivocada e não demonstra o menor indício de empatia ou vontade de levar "melhorias" a quem quer que seja. É, no mínimo, um "tiro no pé" em termos de marketing político.
Será que esse dinheiro não seria melhor aproveitado de outra maneira? Talvez numa tentativa realmente eficaz de devolver a dignidade ou amenizar o sofrimento dessas pessoas. 

De qualquer forma, a imagem em questão é estarrecedora. E mais assustador foi ver as manifestações on line que demonstravam um evidente repúdio aos moradores de rua. Há quem concorde e prefira a opção fácil de eliminar a “feiura” causada por quem vive tão à margem que sequer chega a ser uma preocupação quando medidas assim são tomadas. Uma máxima dos dias atuais é que “quem não consome não é gente”. Idem para quem não vota, ou para grupos cujo poder de decisão política se mostra inexpressivo.

Em uma matéria publicada pelo Jornal Hoje em Dia, Lacerda diz que pretende lidar com as manifestações de rua (protestos, passeatas e afins) disponibilizando 4 policiais para cada manifestante. Resquício da ditadura militar? Enfim, Belo Horizonte reflete um jeito brasileiro de se fazer política que se mostrava acanhado e perdeu a vergonha nos últimos anos: aquele em que vale a lei da mordaça e da restrição dos direitos individuais em favor da "ordem pública".