quarta-feira, 4 de maio de 2011

Bin Laden e os presidentes norte-americanos



Osama Bin Laden, outrora o terrorista mais procurado do mundo, está morto (ou não).
É o assunto do momento em todos os meios de comunicação, de grandes jornais a blogs despretensiosos como este. Ironicamente os dois últimos presidentes norte americanos devem muito à Osama. Tanto o belicista (e fundamentalista) George “son” Bush, quanto Barack Obama.




Basta avaliar os dois contextos. George estava fadado a entrar pra história apenas como o segundo Bush a ocupar a Casa Branca e, claro, como o presidente norte americano com o menor QI até então, isso sem falar de sua fama como “trombadinha eleitoral”.
Sua sorte mudou com o famigerado ataque às Torres Gêmeas. Daquele dia em diante George Bush assumiu sua legítima vocação de Cowboy texano e passou a brincar de John Wayne com Bin Laden. A guerra deu ao governo Bush alguma relevância para o povo estadunidense.
Em um período dominado pelo medo e pelo ódio, saber que o seu presidente está apto para atirar primeiro e perguntar depois trazia um certo alívio para a população americana. Tanto que as pessoas, em sua maioria, nem questionaram a moralidade de” uma” Guantanamo.




O Caso de Obama parece seguir um paralelo semelhante. Eleito com euforia após o desastroso governo Bush, Obama foi recebido pelo mundo com entusiasmo. Simbolicamente, ele parecia romper toda a tradição política americana, tanto pelo fato de ser um homem negro, quanto por ser um democrata que aspirava a cadeira que há anos era ocupada pelos republicanos, com tendências mais conservadoras no contexto político americano.


Obama chegou à Casa Branca com um nível elevado de popularidade, o que não se manteve nos meses que se seguiram já que ele não conseguiu lidar com os problemas econômicos internos, como desemprego e preços altos de bens como a gasolina. Com claras intenções de se reeleger, Obama não contava com o apoio da maioria da população, até o anunciar a morte de Osama Bin Laden, principal nome da Al Qaeda até então.


Assim como seu antecessor, Bush, Obama pode ter sido beneficiado pela existência de Bin Laden, o que pode lhe garantir um segundo mandato. Com o ufanismo norte-americano mais aceso do que nunca, ele parece ter ganhado pontos consideráveis para a futura corrida presidencial. Só faltou mostrar o tal corpo do Osama.

domingo, 20 de março de 2011

Desafios da educação e da cultura


Pensar em educação e cultura implica, consequentemente, pensar em pessoas transformadas por estes bens. Vivemos em um país que, apesar do crescimento econômico e do inegável aumento do acesso ao curso superior, ainda sofre um alto nível de déficit educacional. Isso pode ser facilmente percebido na educação básica.

O atual modelo de ensino público têm enfrentado diversos problemas que vão dos baixos salários dos professores à baixa qualidade do ensino oferecido aos jovens, que terão que disputar (se conseguirem ao menos disputar) por um espaço no mercado de trabalho, sob supostas condições de igualdade, com quem pôde estudar nas escolas particulares e posteriormente nas boas universidades do país. Em suma, a luta continua desigual.


E aí vivemos a contradição perene: As escolas públicas não fornecem condições para que os jovens consigam ingressar nas universidades públicas e terão em sua maioria, que disputar as vagas nas faculdades particulares, o que ainda constitui um problema a ser resolvido, já que o ensino superior privado tende a ser ocupado justamente pelos que têm menos condições financeiras, isso sob perspectivas otimistas, contando com a possibilidade real de jovens pobres que consigam concluir o ensino fundamental e disputar uma vaga no ensino superior.

Do outro lado, as escolas privadas, com salários mais atraentes para professores e em condições de oferecer um ensino mais qualificado, preparam melhor seus alunos que são a maioria dos que ocupam cadeiras nas universidades públicas e nos cursos mais desejados (medicina, engenharia etc). Paradoxal, não? As atuais condições contribuem para que se perpetue o círculo vicioso, que exige das famílias, cujas condições econômicas ainda permanecem precárias, um esforço sobre-humano para superá-las.

As dificuldades em se tratar deste tema tornam-se ainda mais profundas, principalmente sob a ideologia do made-self man, que diz que há oportunidades iguais para todos e, portanto, cada indivíduo é responsável pelo próprio sucesso ou fracasso, em uma perspectiva individualista que ignora todo e qualquer contexto social e econômico e serve de suporte para as vendas crescentes dos livros de auto-ajuda, e transformam nomes como Lair Ribeiro em verdadeiros gurus modernos.

Neste quadro o acesso à cultura, aos livros, ao conhecimento é algo libertador. Para além das questões referentes à erradicação das disparidades sociais (onde a educação se mostrou um dos caminhos mais eficientes), a cultura permite aos indivíduos a possibilidade de escolha, de questionamento e afirmação de identidade. E, talvez, até mesmo de compreensão do “Outro”, embora isso nem sempre ocorra.

Arthur C Clarke, escritor de ficção científica falecido em 2008, conhecido principalmente por seu livro 2001: Uma Odisseia no Espaço, que foi adaptado para o cinema pelo diretor Stanley Kubrick, escreveu em um de seus livros lançados na década de sessenta (Perfis do Futuro), sobre uma espécie de biblioteca global, onde todo o conhecimento humano estaria acessível a todos. Não é preciso muito esforço para traduzir essa “previsão” e compreender que ele falava da internet, embora obviamente não soubesse disso.

O que Clarke não poderia “prever” é que as possibilidade quase ilimitadas de acesso não resultariam, necessariamente, em aumento de repertório cultural. Temos que lidar com outras questões mais amplas ainda, a exemplo de algumas mudanças de âmbito cultural, como o fato de nos tornarmos cada vez mais uma sociedade de imagens, com jovens que consomem menos livros e cada vez mais habituados a pílulas de informação, o que os distancia muitas vezes da possibilidade de pensamento crítico e reflexivo.

Trata-se do cenário perfeito para a apatia política e social, bem como a constituição do público ideal para as respostas fáceis fornecidas por aproveitadores religiosos e dos já citados livros de receita para o sucesso.

Apesar do aparente pessimismo deste texto, é perceptível o fato de que estamos avançando em muitos aspectos e que o horizonte parece ser muito mais promissor do que aquele que podíamos visualizar há cerca de uma década atrás, mas ainda há muito a ser feito, principalmente se considerarmos que nem todas as mudanças são para melhor e que, ao mesmo tempo, não existe a tal “situação ideal”, o que temos é a busca constante por melhores condições e lutas que resultam em alterações práticas, ora mais tímidas, ora mais perceptíveis. Educação e cultura são algumas das ferramentas básicas para que as transformações que almejamos se concretizem.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Um Novo Ciclo




Mais um ano se iniciando. Trata-se apenas de uma mudança de ciclo, um dia após o outro dia, mas a nossa cultura atribui a essa “simples” mudança um significado maior. Oportunidade de recomeço, de alcançar o sucesso onde falhamos anteriormente. Não deixa de ser verdade. Aquelas avaliações sobre o que fizemos de bom ou de ruim no ano anterior são inevitáveis e, até certo ponto, necessárias. Acho importante poder avaliar o tipo de pessoa que nos tornamos e qual direção estamos seguindo. Para mim, 2010 foi um ano de aprendizado, de auto-avaliação e, espero eu, de crescimento pessoal.

Pieguices a parte, a imagem de um velho amigo ainda ecoa em minha memória. Embora ele não tenha expressado isso com palavras, suas atitudes deixaram em mim a idéia fixa de que, se há algum objetivo, estamos aqui é para nos tornarmos o melhor que podemos ser, e passar isso adiante.

A humanidade, de maneira geral, parece se esforçar para atingir o objetivo contrário. Quando penso no quanto avançamos no que refere-se à conquista dos direitos humanos, ao respeito às diferenças me surpreendo com o quanto ainda somos imaturos para lidar com o outro, com a diversidade.

Em 2010 a imprensa foi inundada por relatos de ataques violentos e covardes orientados pela intolerância à opção sexual, ou mesmo crimes violentos contra a mulher. Em um mundo tão conectado, a informação torna-se uma faca de dois gumes que pode ajudar tanto a iluminar a história quanto a fortalecer mentes obscuras e retrógadas, a exemplo dos comentários racistas facilmente encontrados na rede em tempos de web 2.0. A internet torna-se o ambiente propício para que os preconceitos se manifestem, sem as censuras costumeiras do “mundo real”. Ao mesmo tempo, como uma espécie de equilíbrio da balança, me satisfaz observar momentos tão importantes como o atual, com uma mulher ocupando a presidência da República em uma sociedade ainda dominada por preceitos machistas.

Apesar de uma campanha eleitoral provinciana, onde aspectos religiosos ganharam importância desproporcional às propostas políticas e aos perfis dos partidos, o fato do ex-torneiro mecânico ter obtido sucesso onde outros falharam pesou positivamente a favor de Dilma Roussef. Juca Ferreira, por sua vez, deixa o Ministério da Cultura em uma situação privilegiada em relação a outros períodos da nossa história, encerrando com honra o trabalho iniciado por Gilberto Gil.

Ao falar de avaliação e retrospectiva é impossível não fazer um balanço, mesmo que superficial, dos oito anos da era Lula. Particularmente, me senti realizado com a sua posse em 2003. Fiquei frustrado com as avaliações rasas e preconceituosas que o apontavam como analfabeto e incapaz. Fiquei feliz quando presenciei o Pró-UNI dando acesso ao ensino superior a vários jovens pertencentes às camadas mais pobres, ação que repercutirá por gerações na história destas famílias. Eu mesmo fui beneficiado por este governo, embora tenha iniciado meus estudos antes do início e implementação do programa.

Vitória maior ver o Luiz Inácio retornar a São Bernardo do Campo com um índice de aprovação de 80%. Tão alto que a oposição tem que medir as palavras para criticar o seu governo, sob pena de tornar-se impopular diante do eleitorado. Nem a Vênus Platinada ou a Veja ousariam criticá-lo com a mesma virulência de outros tempos.
Mas é assim mesmo que caminhamos, individual ou coletivamente, com avanços e retrocessos, retrocessos e avanços. Novo ano, novo ciclo. 2011 abre a nova década com um sabor diferente, com a promessa de tempos mais otimistas.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Dia da Consciência Negra: Uma reflexão necessária


Por Roger Deff


A comemoração do 20 de Novembro, Dia da Consciência Negra, aponta para a necessidade de uma reflexão sobre a contribuição do negro na construção do país, em seus diversos aspectos, tanto culturais quanto estruturais.

A data foi escolhida pelo Movimento Negro Unificado (MNU) em 1978, por se tratar do aniversário da morte de Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares, assassinado em 1698, após décadas de resistência, o que faz dele um dos maiores símbolos de luta pela liberdade e igualdade de direitos da nossa história, inexplicavelmente relegado ao segundo plano nos livros escolares. Ao mesmo tempo, o 20 de novembro é uma espécie de contra-ponto ao 13 de maio, que marca a abolição da escravatura pela princesa Isabel em 1888, uma vez que, para os representantes dos movimentos negros, a data não é digna de celebração, devido as condições em que os negros “libertos” foram deixados, com seqüelas sociais que repercutem até os dias de hoje.

Trata-se de um momento importante para a toda a sociedade, não apenas para a população negra, que hoje compreende cerca de 40% do povo brasileiro o que faz do Brasil o maior país negro do mundo fora do continente africano. O reconhecimento (tardio) da contribuição do negro na construção da nossa história representa uma grande avanço. É um passo tímido mas significativo em um país que se notabilizou por ter sido a última nação ocidental a abolir oficialmente o regime escravocrata.

A comemoração nos traz ainda a oportunidade de confrontarmos de perto questões que permanecem presentes em nossa sociedade como o preconceito racial, eterno tabu, cuja discussão ainda é reduzida. O tema permanece ignorado já que temos muita dificuldade em percebê-lo em suas formas “sutis” de manifestação.

Ainda somos vítimas do mito da democracia racial, que nega qualquer preconceito ou intolerância em um país miscigenado como o Brasil. Como efeito bizarro, admitimos a existência do racismo (embora nem todos nós – há quem negue) mas não identificamos a discriminação racial em suas inúmeras formas, boa parte delas já arraigadas em nossa cultura. Preconceitos que se manifestam tanto na imposição de um estereótipo midiático de beleza, quanto em piadas que se proliferam “inocentemente” tendo a cor da pele como principal mote.

Há ainda a disparidade social que separa brancos e negros, gerando um abismo de oportunidades educacionais, empregatícias e, consequentemente, de desenvolvimento social. Segundo dados do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) a população negra ainda enfrenta um déficit educacional considerável em relação aos seus pares brancos, com uma média de 1,7 anos a menos de tempo nas escolas, lidando ainda com uma taxa de analfabetismo de 13,4% enquanto entre os brancos o percentual é de 5,9%.

Sim, o 20 de novembro merece ser comemorado, mas nunca de forma acrítica. É um convite à análise sobre o quanto avançamos em relação às condições de vida dos afro descendentes, e também do quanto precisamos caminhar ainda.

domingo, 31 de outubro de 2010

Os desafios de Rousseff



Quando a filósofa Marilena Chauí disse que pertencemos a uma geração privilegiada, pelo fato de termos presenciado transformações políticas importantes, eu me identifiquei imediatamente com ela. A vitória de Lula há oito anos atrás representou a ruptura com uma tradição política elitista e oligárquica. O simples fato do ex-torneiro mecânico assumir o cargo mais importante do país já significava um enorme avanço. Claro que a história não o perdoaria se ele não fosse, no mínimo, melhor que seus antecessores. E foi o que de fato aconteceu.

Embora tenha tido uma vitória esmagadora sobre o adversário José Serra, Lula não contava, obviamente com a simpatia das elites brasileiras. O preconceito pela origem humilde e por não possuir um diploma de curso superior eram explícitos, por parte dos mais diversos setores da sociedade. Anos depois, mesmo com escândalos envolvendo membros de seu governo e a perseguição constante por parte da ala mais conservadora da imprensa, Luiz Inácio da Silva chega ao final de seu governo com o maior índice de aprovação já experimentado por um presidente brasileiro.


Fazendo um breve retrospecto, o governo de Lula colocou o país como uma das principais lideranças mundiais, melhorou a distribuição de renda do país e ampliou o acesso ao ensino superior, embora os investimentos na educação básica ainda sejam insuficientes.

O saldo é positivo em todos os aspectos, o sucesso do governo petista abriu precedentes importantes em termos de políticas sociais, culturais e econômicas, além de situar o presidente como uma das figuras mais influentes do quadro político internacional, admirado inclusive pelo atual presidente dos EUA, Barack Obhama, cuja eleição também representou uma quebra de paradigmas pelo fato de representar o retorno dos democratas ao poder, após anos do desastroso governo republicano de George W Bush, e por ser o primeiro negro a ocupar a cadeira da nação mais poderosa da terra. Isso cerca de 40 anos após a luta pelos direitos civis naquele país.


A eleição de Dilma Roussef para a Presidência da República representa, para mim, um passo tão importante quanto o que foi dado há oito anos atrás, com a vitória de Lula. Estamos diante de outra ruptura, temos uma mulher no poder em uma sociedade ainda patriarcal. Segundo, Dilma representa a continuidade de um projeto social que mudou o panorama do país.


A campanha presidencial também ficará marcada na história por razões menos dignas de orgulho, como o tom religioso que predominou durante boa parte da campanha. Ao mesmo tempo em que a discussão sobre o aborto saiu do campo da saúde pública para o reducionismo moralista da questão. O Brasil se mostrou um país conservador em vários aspectos, embora o fator “Lula” tenha prevalecido no final.
E será justamente este um dos maiores desafios de Dilma, a figura mítica do presidente mais popular da história do país até então.

Na ocasião em que Lula assumiu a Presidência do país em 2003 eu acabava de ingressar na faculdade, hoje sou o primeiro homem da minha família a conquistar um diploma de curso superior. Motivo de alegria e de preocupação já que segundo dados do IBGE o percentual de negros com formação universitária ainda é de apenas 4,7%, embora tenha aumentado nos últimos anos, ao passo em que o percentual de brancos é de 15%. Mais um desafio, entre muitos, a ser enfrentado pelo próximo governo.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Zé Brown - Repente rap Repente



Repente, hip-hop, coco, embolada, literatura de cordel e outras referências culturais nordestinas: essa é a receita do álbum Repente rap Repente do pernambucano Zé Brown.
Este mc/ repentista iniciou sua carreira em meados da década de 90, com o grupo Faces do Subúrbio, que, naquela época, já mantinha um diálogo muito íntimo com as manifestações culturais de Recife.

Desde 2003, Zé Brown realiza um trabalho de pesquisa sobre a embolada e as técnicas do repente, o resultado é este álbum, concluído em 2009 mas ainda sem lançamento oficial. O disco conta com a produção primorosa do soul man paulista Skowa (Skowa & Máfia e Trio Mocotó) e do músico Janja Gomes (também oriundo do Trio Mocotó), e traz várias (e eficientes) participações.

Não é exagero afirmar que este trabalho merece figurar em qualquer lista dos 10 melhores álbuns do gênero na última década. Sem fazer concessões, Repente rap Repente é original, ousado, e não aparenta ter a menor preocupação em se fazer “produto de exportação”, e é justamente aí que reside um dos seus principais méritos.
O CD mantém um nível muito bom, da primeira à última audição. Ainda assim, algumas músicas (entre as 14 do CD) merecem ser destacadas, a exemplo de “Desafio de Coco”, faixa que traz a participação de João Parahyba e mescla guitarras distorcidas a elementos percussivos e sons de berimbau, criando uma estética única que traduz muito da proposta outsider do álbum. Pode causar estranhamento? Provavelmente. Mas, com certeza ficará muito distante do meio termo e das opiniões unânimes.

Outra música que chama a atenção é “Eu valorizo”, um verdadeiro manifesto em prol da identidade regional presente no disco. Marcada pelo acordeon e pela percussão como seus principais elementos, ela é uma das melhores traduções do rap-repente proposto por Zé Brown.
“Consideração” com letra que narra a experiência de Zé Brown na Suécia, foge um pouco à estética das outras músicas e conta com a participação do rapper sueco Format. Essa deve agradar em cheio aos adeptos do rap “convencional”, embora o termo não se aplique muito bem a um trabalho tão experimental como este. Em “Perito em rima” o produtor Skowa leva o rap-repente de Zé Brown ao universo groovado da funk music.

Sem mais, Repente rap Repente é uma viagem musical sincrética e enriquecedora, daquelas obras que, literalmente, te tiram do lugar.

O álbum conta ainda com as participações de Castanha, Zeca Baleiro, Rappin Hood, DJ Marcelinho e Bola 8 (Nação Zumbi).

Conheça um pouco do trabalho aqui:
http://www.myspace.com/repentistazebrown

sábado, 5 de junho de 2010

Lenis Rino - Cabeça de Pipa

"Pés no chão e cabeça no ar"






O percussionista Lenis Rino já tocou ao lado de nomes importantes da música brasileira, e traz em seu disco de estreia “Cabeça de Pipa” a maturidade de quem está na estrada há alguns anos. E o trabalho surpreende até mesmo aos ouvidos mais desconfiados e exigentes. O disco mistura muito bem uma enorme diversidade rítmica como dub, maracatu, ragga, hip-hop, samba, elementos da música regional nordestina e referências às tradições do candomblé.


O trabalho, composto por 11 faixas, passeia por estes universos distintos e consegue se manter coeso, contando com diversos convidados que dão “os tons” necessários às composições de Lenis Rino. A obra realiza voos ousados, mas mantendo os pés no chão, sem deixar a sensação de experimentalismos casuais ou impensados. É justamente deste conceito que nasce o título “Cabeça de Pipa”: viajar sem perder a conexão, o que o álbum faz muito bem.


A música de abertura “Base Forte” apresenta uma levada rap bem tradicional, uma das influências centrais para o Lenis Rino, já que o músico viveu um bom tempo em São Paulo, um dos principais redutos do gênero no país. A segunda faixa, “Flores de fevereiro” é um rap com influência de música cubana que conta com as rimas de Gaspar, Mc do grupo paulistano Z’áfrica Brasil.


Destaque para “Quase uma”. Viagem instrumental psicodélica que mescla sons sampleados a instrumentos de corda e percussivos. Talvez a música que melhor traduduza o conceito de “Cabeça de Pipa”.
O disco ainda é composto por boas canções como Maleável Mano, Monkey Stile, Zalap e se encerra com dignidade, fugindo completamente do óbvio, na tranquila “Tempo de Anjo”. Fórmula simples: violão e sampler somados à voz de Marina Machado.


Trata-se de um disco para ser ouvido com atenção. Obra conceitual em que as faixas se complementam como em um mosaico sonoro. Coisa cada vez mais rara, principalmente em uma época em que a fruição fugaz e os downloads de fonogramas isolados dificultam este tipo de leitura.
Além dos já citados, o disco também conta com as participações de Marcelo Mariano, Bruno Caram, Alberto Continentino, Anelis Assumpção, Marina Pitier, Denis Duarte, Bruno Buarque e Flávio Maia.
O CD foi lançado pelo selo paulista Traquitana e pode ser ouvido e adquirido aqui.