domingo, 14 de outubro de 2007

Até qualquer dia

Há um ano atrás o mundo perdia Pedro Marcos Mendes Pinto. Não sei se lamento “pelo mundo”, por não ter a menor noção do quanto esse ser humano contribuiu para que este planeta se tornasse um lugar melhor, ou por nós, amigos que tivemos o prazer de conhecê-lo e hoje sentimos imensamente sua falta.
Pedrão era para mim uma espécie de “herói anônimo”. Um voluntário incansável da Anistia Internacional, um defensor dos direitos individuais. Mas além de tudo isso, Pedrão era meu grande amigo, e ficou um espaço vago, aqui do lado esquerdo, depois de sua partida.
Alguém disse, na ocasião de sua morte, que ele veio ao mundo para nos inspirar. Nos fazer mostrar o que temos de melhor, ou pelo menos fazer com que tentássemos ser um pouco mais do que nossa natureza mesquinha permite.
Recebi a notícia, naquela manhã de 19 de Outubro de 2006, coincidentemente meu aniversário.
No dia seguinte escrevi o texto abaixo, e enviei a todos que o conheciam, ou tinha algum tipo de contato. Era minha tentativa de prestar uma última homenagem ao amigo, de fazê-lo saber o quanto era especial pra gente.
Abaixo o e-mail que escrevi, ainda emocionado, numa espécie de “último bate-papo”.
Até qualquer dia Pedrão.

Cadê a luz meu brother?

Brother meu, brother meu...
Cê nem imagina a falta que cê tá fazendo neste mundo conturbado e louco.
Cheio de gente bitolada e obtusa. Gente preconceituosa preocupada em adequar o mundo às suas normas morais hipócritas.
Tô ficando meio de saco cheio disso.
Acho que você também estava. Uma vez você me falou do significado daquele símbolo da Anistia.
Uma vela, apenas uma vela, cuja pretenção, segundo você, nunca foi iluminar a história toda, apenas ser uma luz singela, mas persistente mostrando a quem quer que fosse que, apesar de tudo, tem gente que se importa.
Existe uma pequena luz indicando que em meio às trevas da truculência, do autoritarismo e do preconceito existem pessoas que pensam além do próprio umbigo.
Brother meu, fiquei mais sozinho sem você aqui. O mundo ficou mais triste, mesmo que a maioria das pessoas não saiba.
Um humanista a menos.
Uma centelha a menos pra ajudar a manter aquela chama acesa.
Roubando as palavras do José Arbex, você foi um dos poucos capaz de dignificar o termo "humanidade".
Orgulho e privilégio de ter sido seu contemporâneo, acima de tudo, de ter sido seu irmão.
Você se foi meu brother, mas a sua essência permanece, tá bem viva em cada um que te conheceu.
Você veio ao mundo pra deixar um exemplo, e eu aprendi.
Aprendi que o que dá sentido à vida é a luta pela preservação da mesma, aprendi que só aprendemos para ensinar alguma coisa boa ao próximo.
Você veio, deu sua contribuição anônima e se foi. Um herói anônimo.
Nós continuamos aqui, meu brother, em meio a guerras, conflitos e gente muito medíocre preocupada em rotular "bons e maus" exercitando seu egocentrismo exacerbado e passando a cartilha adiante...
Me dá desanimo pensar nisso, mas não foi isso que você fez. Pelo contrário, preferiu fazer alguma diferença e dormir sabendo que, apesar de tudo, você fez sua parte.

É por causa de gente como você que a gente não se acovarda. É por causa de gente assim, que o mundo não vai de vez para o buraco,
É só porque conheci gente como você que eu ainda acredito em alguma coisa. Tem esperança sim.
Ainda tem gente mais preocupada em realizar algo pelo bem coletivo do que em provar suas "verdades"...
Mas disso você já sabe. Sua missão tá cumprida, passou a bola pra frente.
E sua estadia curta aqui ajudou a fazer deste um lugar melhor para se viver.
Viver sem medo. É nisso que você acreditava, não é mesmo?
Só não dá pra te dizer adeus meu irmão, nem se eu quizesse, você é, e será sempre o exemplo mais intenso pra mim. Exemplo de que nós fazemos diferença.
Você tá aqui, em cada palavra, em cada idéia deste texto e vai estar sempre, toda vez que alguém neste planeta lutar e gritar por justiça,
liberdade e igualdade.

"...porque uma coisa é violar os direitos humanos no anonimato, outra coisa é fazer isso quando as pessoas começam a agir " - Pedro Marcos

2 comentários:

Luis Lagarto disse...

Mais de um ano, já, e eu ainda não sei como entender o que aconteceu.
Era pra ele ter vindo aqui pra São Paulo, dar uma palestra, no final de outubro. Foi só quando ele não me ligou no dia que eu fui jogar o nome dele no Google pra saber onde seria o evento.
E foi assim que eu descobri o que tinha acontecido.
Irreal demais, cara!! Muito irreal. Quase impossível. De acreditar, de entender -- certamente impossível.
Não conheci ninguém que o conhecia. Nunca soube onde rezaram missa, onde foi depositado seu corpo, nada. Se puder, em algum momento, me diga.
E não tive coragem não, de ler seu texto. Fico feliz que o tenha escrito (seu blog, por sinal, é excelente) mas é muita, muita dor pensar nisso.
E todo dia eu penso nisso, querendo que ele esteja muito em paz, onde está.
Que ele saiba, de lá, o que sinto.
Esse homem que, sabendo ou não, fez tanto por mim e eu nem sei se soube retribuir como devia.
Meu amigo.

LL

Rogério Dias disse...

Luiz, há algo de comum em todos que o conheceram. Ele fez de cada um de nós pessoas melhores, fez muito por todos nós.
Fica a saudade brother!