quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Unidades Pacificadoras?



Tenho acompanhado as notícias sobre a ocupação da Favela da Rocinha (Rio de Janeiro) pelas UPPs (Unidade de Polícia Pacificadora), na chamada “Operação Choque de Paz”. A mesma que aconteceu meses atrás em outras favelas cariocas (Morro Santa Marta , Cidade de Deus, Jardim Batam , Babilônia e Chapéu Mangueira etc) expulsando chefes do trafico que residiam naquelas localidades e substituindo o domínio local. O objetivo das operações é ocupar total e permanentemente os morros para que os traficantes não tenham como retornar.
É fato: a vida dos moradores dos morros (cariocas ou não) nunca foi das mais fáceis. Resultado de anos de abandono do estado, que nunca se preocupou realmente em tornar as comunidades mais seguras para quem vive nelas, e tenho minhas dúvidas quanto à natureza dessa preocupação agora.
O mesmo estado que esteve e ainda está ausente em questões básicas como educação, saneamento básico, etc, agora tem que lidar de maneira desesperada com um problema que foge ao seu controle: o crime organizado, que tem alguns de seus representantes sediados nas favelas, e que passa a incomodar principalmente pelo fato de o raio de ação dos criminosos não se restringir às favelas. O problema da violência urbana gerada pelo tráfico atinge o asfalto, a classe média, familiares e amigos de quem detém o poder no país e é a partir daí que a questão passa a ser vista como problema de ordem pública, e não como uma situação isolada.
Algo precisava (e precisa ser feito) para deter o tráfico? Claro. Ninguém em sã consciência questionaria isso. Mas questiono as razões por trás das ações, por trás das UPPS. Elas irão realmente promover a paz? Elas foram criadas para beneficiar os moradores ou para impressionar os gringos durante a Copa do Mundo e as Olimpíadas?
E, sabendo do histórico conflituoso, pra não dizer extremamente violento, entre a polícia e a população economicamente menos favorecida, me pergunto o que de fato melhorou nas vidas desses moradores. Seria muito acreditar que essa polícia não é a mesma que estabeleceu ao longo das décadas uma relação truculenta e criminosa com grupos marginalizados (não confundir com marginais = criminosos). A mesma polícia que utiliza de violência desnecessária para lidar com meros trabalhadores, suspeitos a priori por fatores como a localização geográfica, a cor da pele, a conta bancária... tanto faz se é um ou outro fator isolado, mas, se todos coincidirem há na lógica policialesca uma séria possibilidade de o sujeito passar de suspeito à culpado. E o que dizer então do conhecido envolvimento de uma parcela da própria polícia com o tráfico de drogas? O poder não está apenas mudando de mãos?
Assistimos ao espetáculo televisivo da invasão ao Morro Santa Marta, à Cidade de Deus, à Favela da Rocinha, etc. A população (de fora das favelas, lógico) aplaudiu com a mesma empolgação de quem assiste a um filme holliwoodiano, legitimando a reação do estado ao crime organizado, que talvez fosse desnecessária se esse mesmo estado se fizesse presente em outros aspectos.
No que diz respeito à cobertura da grande imprensa, me parece que um lado muito importante da história não foi ouvido e, se foi, me parece que foi sub-valorizado: o lado dos moradores. O que eles acham? Com certeza estão felizes com a saída dos traficantes, mas a presença permanente da força de repressão do estado também não é incômoda? Saem homens armados e entram outros homens armados, e realmente não sei o que é pior para aquelas pessoas.
Há relatos vindos das favelas “pacificadas” abordando a relação de poder estabelecida entre as UPPs e os moradores, chegando ao ponto de os policiais impedirem os moradores de ouvirem suas musicas, coibindo manifestações culturais, calando inclusive vozes contrárias às suas presenças. Moradores descontentes têm protestado, insatisfeitos com a atual situação, protestos cuja repercussão não encontra eco na grande mídia, salvo veiculos independentes de menor alcance, mas importantes para apontar essa contradição.
Muitos diriam que esse é um “mal necessário”, mas as mudanças que precisam acontecer tem que ser mais profundas e de outra ordem. A Ocupação dos morros pelas tropas é um paliativo que "resolve" uma questão, por um tempo determinado, e cria a médio e longo prazo outro tipo de problema. As causas do crime, do tráfico são diversas e profundas e não é a ocupação armada que resolverá a questão. A restrição à liberdade também é um tipo de violência, que gera outras formas de violência.
Passadas as Olimpíadas e a Copa do Mundo o que acontecerá? Todo esse valor investido não poderia ser utilizado para melhorias concretas nas vidas dos moradores das vilas e favelas do Rio? O governador Sérgio Cabral (PMDB) agora é visto como herói, mas de quem e por quanto tempo?

2 comentários:

guigonser disse...

Tudo um grande teatro visando a propaganda positiva para a Copa do Mundo e para os Jogos Olímpicos de 2016. Triste!

Rogério Dias (aka Roger Deff) disse...

Triste, e muito!